Histria das lendas

Copyright  Autor: Jean- Piere Bayard Traduo: Jeanne Marillier Edio
eletrnica: Ed Ridendo Castigat Mores (www. jahr. org)

HISTRIA DAS LENDAS

JEAN-PIERRE BAYARD

NDICE
INTRODUO.
PRIMEIRA PARTE: Evoluo das Lendas.
CAPTULO I.  Generalidades.
CAPTULO II.  Divulgao dos contos.
CAPTULO III.  Interpretao das lendas.
I. Sentido profano.
II. Sentido sacro e inicitico.
SEGUNDA PARTE: Estudo das Lendas.
CAPTULO I.  Fausto.
CAPTULO II.  Don Juan.
CAPTULO III.  As canes de gesta.
I. Cano de Rolando.
II. Os quatro filhos de Aymon.
III. O Cid.
CAPTULO IV.  O ciclo arturiano.
I. A Demanda do Santo Graal.
II. Merlin.
III. Tristo e Isolda.
CAPTULO V.  O maravilhoso da lenda.
I. Gargntua.
II. O judeu errante.
III. Roberto, o Diabo.
IV. Pierre de Provena.
CAPTULO VI.  Formao das lendas recentes.
I. Cartouche.
II. Mandrin.
CAPTULO VII.  Alguns contos de Perrault.
I. Introduo.
II. O Barba-Azul.
III. A Bela Adormecida no bosque.
IV. Gata Borralheira e Pele de Burro.
V. O pssaro da verdade.
VI. O Chapeuzinho Vermelho.
VII. O Pequeno Polegar.
VIII. Joo, o Urso.
IX. Riquet  la Houppe.
X. O Gato de botas.

BIBLIOGRAFIA.
NOTAS.

INTRODUO

A evoluo constante da humanidade para um fim inatingvel influi sobre a 
vida do indivduo; as artes, expresso natural do homem, constantemente 
modificada, seguem uma curva que pretendemos ser ascendente.

Foi dito que tudo o que era esttico, imvel, era atrasado; a evoluo s 
deve ser dinmica. Contudo, o estudo da evoluo nos confunde dada a soma 
de mistrios que surgem a todo momento.

Parece paradoxal que homens, em pocas em que a cincia era menos 
adiantada do que a nossa, tenham descoberto leis que apenas encontramos. 
Contudo, as caractersticas das grandes pirmides nos provam, de maneira 
irrefutvel, que os egpcios conheciam os segredos de frmulas que ainda 
no descobrimos inteiramente. Nossos rigorosos clculos cientficos eram, 
sem dvida, substitudos por outra cincia to precisa quanto a nossa.

Esta evoluo ascendente torna-se, desta forma, menos positiva; cremos 
apenas que as questes formuladas o eram de maneira diferente;  uma 
transformao de energias. O mar, com seu fluxo e refluxo, pode, em 
certos momentos, fazer crer que evolui; contudo, permanece como , no 
enche sem vazante. Nossa lei de transformao torna-se ento uma 
constante e a contribuio de nossa atividade
cientfica cuja utilidade no  certa   anulada pela nossa falta de 
raciocnio. Numa civilizao mecanizada o esprito acha-se cada vez mais 
deslocado

Se nossos conhecimentos se modificaram, a inteligncia continua a ser um 
bem imutvel; no se pode dizer que Einstein seja mais inteligente do que 
Pascal, mas apenas que Einstein resolveu, em seu tempo, outros problemas. 
Einstein  ou qualquer outro sbio  descobriu apenas o que outros j 
haviam vislumbrado, e quando diz que o mundo est fechado, repete apenas 
o que o Evangelho de So Joo Batista j nos ensinou.

A evoluo do homem continua pois a ser uma miragem e os grandes 
iniciados revelam, simbolicamente, algumas verdades cuja veracidade 
controlamos com dificuldade. O estudo de problemas humanos, de raas, de 
folclore; nos leva a crer que o homem, anteriormente, tenha sido um 
iniciado mas que seus conhecimentos se perderam. Algumas tribos da frica 
equatorial conservaram virtudes e sentidos que j no temos. Nossas 
sensaes se evaporaram.  assim que um ensinamento geral emana dos 
contos e que toda essa poesia annima, feita de graa e frescor, reflete 
a mesma preocupao.

Acontece que essa literatura coletiva, criada pelo produto inconsciente 
da imaginao, pela massa, pretendia ser um testemunho, uma prova. No  
absurdo pensar que os contos, antes divulgados oralmente e depois, por 
escrito, provavam, apoiavam teses, argumentavam em seu favor. Sob a forma 
de um divertimento, a fbula educava.

A moral dessas fbulas  agradvel, engraada; distrai pois no aborrece 
aquele a quem se dirige. O estudo do folclore mundial  que reflete a 
atividade, o pensamento de uma poca e de um povo  pois o estudo da 
humanidade. Essas obras esclarecem perodos obscuros e suas deformaes 
so instrutivas, pois nada mais so do que a evocao de mores locais, de 
concepes particulares e humanas. A lenda, mais verdadeira do que a 
histria,  um precioso documento: ela exara a vida do povo, comunica-lhe 
um ardor de sentimentos que nos comove mais do que a rigidez cronolgica 
de fatos consignados; desta forma, o romance  a sobrevivncia das 
lendas. Imaginamos uma literatura cientfica na qual os robots escrevem 
poemas; mas esses engenhos mecnicos nunca podero transmitir emoes 
iguais s contidas nos poemas de Villon ou de Baudelaire, pois que as 
obras desses homens eram feitas com sangue.

Alm do maravilhoso que envolve esses mitos  preciso descobrir o tema 
inicial que se reproduz em pases diferentes e muito longnquos: essa 
concepo nos leva a uma nova interpretao. Esses contos misteriosos 
fazem a Th. Briant escrever (Le Goland, n. III) (A Gaivota): cada 
lenda podia ter uma explicao mstica no plano de analogias e 
correspondncias, contudo, as identidades nos fogem e chapinhamos no 
Relativo.

Alguns contos, assim tratados, mostraram aspectos de sua evoluo e 
interpretao;  evidente que estas simples pginas no esgotaro o 
assunto.

PRIMEIRA PARTE EVOLUO DAS LENDAS CAPTULO I GENERALIDADES
I.  Definies

A palavra lenda provm do baixo latim legenda, que significa o que deve 
ser lido. No princpio, as lendas constituam uma compilao da vida dos 
santos, dos mrtires (Voragine); eram lidas nos refeitrios dos 
conventos. Com o tempo ingressaram na vida profana; essas narraes 
populares, baseadas em fatos histricos precisos, no tardaram a evoluir 
e embelezar-se. Atualmente, a lenda, transformada pela tradio,  o 
produto inconsciente da imaginao popular Desta forma o heri sujeito a 
dados histricos, reflete os anseios de um grupo ou de um povo; sua 
conduta depe a favor de uma ao ou de uma idia cujo objetivo  
arrastar outros indivduos para o mesmo caminho.

A fbula  uma narrao em verso, cujos personagens so animais dotados 
de qualidades humanas. As mais clebres fbulas so as de Esopo, La 
Fontaine e Florian.

Os contos de animais so fbulas redigidas em prosa. O conto  uma 
narrao maravilhosa baseada numa trama romanesca; os lugares no so 
determinados e os personagens no tm nenhuma preciso histrica; a 
narrao distrai. A lenda  um conto no qual a ao maravilhosa se 
localiza com exatido; os personagens so precisos e definidos. As aes 
se fundamentam em fatos histricos conhecidos e tudo parece se desenrolar 
de maneira positiva. Freqentemente a histria  deformada pela 
imaginao popular.

O mito  uma forma de lenda; mas os personagens humanos tomam-se divinos; 
a ao  ento sobrenatural e irracional. O tempo nada mais  do que uma 
fico. Na realidade, essas categorias se embaraam e os mitos so de uma 
infinita variedade; relacionam--se s religies, so cosmognicos, 
divinos  ou hericos. As lendas, com personagens mais modestos, fazem 
evoluir mgicos, fadas, bruxas, que, de uma maneira quase divina, influem 
nos destinos humanos.

2.  Origem

A lenda, mais verdadeira do que a histria, devido  quantidade de 
ensinamentos humanos, contraria freqentemente a verdade psicolgica; uma 
abbora transforma-se em carruagem; um rato, em cocheiro. Entretanto, 
essas fices no so nem pueris nem grotescas; elas nos interessam, nos 
repousam e nos deslumbram. Esse mundo fluido que pe em xeque o nosso 
mundo real, foi definido pelo bondoso Jean de la Fontaine:

e at mesmo eu. Se me contassem a Pele de burro sentiria um extremo 
prazer( 1)

Este divertimento do povo  sua aspirao secreta, sua busca espiritual 
de um mundo maravilhoso onde impere o valor do homem, onde as leis, to 
detestadas, sejam abolidas. E o encantamento, a volta ao Paraso 
Terrestre.

A lenda existe desde a formao do cl, da sociedade e os temas se 
desenvolvem com preocupaes semelhantes em todas as culturas.

Essa literatura coletiva pode ser proveniente de um nico mito propalado 
de pas em pas A ndia foi
A primeira a nos fornecer o ndice escrito desse folclore mundial, o que 
no implica que a ndia seja o seu bero. Divulgados oralmente, esses 
contos -foram talvez escritos e conservados em outros pases, mas sua 
mensagem no chegou at ns: por muito tempo ignorou-se as riquezas 
contidas nas pirmides cujos segredos ainda no foram completamente 
desvendados, o que no permitiria aos nossos filhos dizerem que as 
pirmides no contm nenhum segredo.

Esses contos, transformados, decantados, modificados, foram portanto 
transcritos nos Vedas, aproximadamente 4.5OO anos a. C. base de nossa 
mais antiga civilizao teriam os Arias e o original da compilao  o 
Pantchatantra (os cinco livros). Considerando os animais que falam e as 
leis da metempsicose, parece ser a fbula um produto espontneo da ndia. 
 curioso, contudo, que uma passagem do romance de Merlin esteja 
reproduzida num conto Indiano (Gulcasapati) e numa compilao de 
Somadeva. Sinais do budismo aparecem em vrios outros lugares e 
principalmente na grande caridade demonstrada pelos heris para com os 
animais.

Nestes ltimos anos, a escola folclorista compilou contos semelhantes aos 
da ndia, em todos os pases. Portanto, os mitos se divulgaram atravs do 
tempo e do espao. A religio grega toma emprestado  religio fencia, o 
mito de Adnis e Cibele. Reinhold Kohler e Theodor Benfey ficaram 
estupefatos ao encontrar os mesmos temas iniciais em todos os pases.  
verdade que durante sua peregrinao, os contos se transformaram; h a 
influncia do meio, a alterao de certos fatos, lacunas que foram 
preenchidas e novos motivos surgiram, mas a base da criao continua a 
mesma; as particularidades locais, muitas vezes morais, fornecem 
preciosos ensinamentos sobre o povo e sua maneira de pensar.

A divulgao dos contos talvez nos surpreenda em funo da poca mas, na 
realidade, os pases se comunicavam entre si muito antes das viagens de 
Cristvo Colombo, Magellan ou Marco Polo. Teria havido navegadores, 
verdadeiros aventureiros, que transportavam ensinamento de uma a outra 
civilizao e o ritmo da vida era assim o mesmo em cada pas. A Amrica 
possua suas fundies no mesmo perodo que a sia ou a Europa.

Concluindo, no se pode afirmar que houve uma nica inveno, mas apenas 
a ndia possui os documentos antigos onde nossos mitos esto registrados

3.  Os temas

Transcrio do pensamento do povo, os temas simbolizam suas aspiraes. 
Transposio de sentimentos e desejos humanos a lenda abole o real.

O homem  infeliz torna-se poderoso. A pastora bela e incompreendida, 
desposa um prncipe encantado; o sapatinho perdido, emblema de sua 
beleza,  cultuado na ndia. As mulheres, prisioneiras dos hbitos, vivem 
sob a dependncia do homem: as princesas tero liberdade e o rei ser 
passivo. O subconsciente criou uma supercompensao para os nossos 
sentimentos de inferioridade

Os mistrios naturais preocupam a imaginao: tudo  maravilhoso, 
incompreensvel, surpreendente e fascinante. Desde o desabrochar da flor 
at as ondas sorrateiras que dirigimos sem conhecer  a eletricidade  
essas manifestaes so de uma amplitude desconcertante. O sol e, 
conseqentemente, a lua, favorecem com seu culto, a criao de 
malefcios, de palavras mgicas e de palavras-chave.

Entretanto, esses conhecimentos s podem ser adquiridos com uma certa 
iniciao; para comandar os espritos  preciso instruo e o adepto, 
depois das provas e dos trs estgios (purificao, conhecimento
e poder), conhecer, finalmente, todas as virtudes da cmara secreta. O 
conto ser uma lio mas o mito no poderia se enunciar claramente; 
elementos conscientes, s instruiriam os iniciados enquanto que o povo 
veria nisso apenas um divertimento. Naturalmente a bruxaria liga-se a 
essa magia feiticeira.  a estranha personalidade do diabo. A lenda 
religiosa deveria se utilizar do antagonismo entre a dualidade da alma 
humana.

De acordo com Freud, a sexualidade desempenha um papel primordial no 
comportamento da sociedade;  representada sob o smbolo do algarismo 3  
a Trindade mstica  e o lrio herldico representaria o rgo macho. A 
psicanlise interpretar os contos da mesma forma que os sonhos.

A lenda histrica fundamenta-se em fatos reais, mas o narrador altera a 
verdade a fim de provar. A lenda do Cid, criada quarenta anos depois da 
morte do heri,  de composio diferente da de Rolando, escrita duzentos 
e setenta anos depois de Roncesvales. As suas falhas so flagrantes, bem 
como nas duas clebres lendas picas, a Ilada e a Odissia.

Outras lendas esto em formao. Eis a de Cartouche, Mandrin, Jack, o 
Estripador, Mayerling, o mito de Hitler vivendo num rancho americano  
anlogo ao de Napoleo. A irmzinha de Lisieux deu origem, segundo o 
padre de Ars ou So Vicente de Paula, a uma imensa literatura que no 
pode desaparecer imediatamente.

Todavia, nesses ciclos temticos, raramente um tema se representa no 
estado isolado; ele se imbrica com vrios outros, tambm mais ou menos 
modificados. Sendo esses assuntos primordiais inumerveis, estudaremos 
apenas alguns mitos principais.

4.  A pesquisa folclrica

A palavra folklore foi criada por W. J. Thomas, em 1846. Folk significa 
povo e lore; saber ou conhecimento. Antigamente os franceses empregavam a 
expresso: Tradies Populares.

Perrault, quando publicou, na editora Barbin (Paris), em 1697, suas 
Histoires ou Contes du temps pass, abriu caminho aos irmos Grimm que 
compilavam os contos ouvidos da boca dos camponeses de Hesse, em 1810. 
Walter Scott fez o mesmo na Inglaterra, em 1820, aproximadamente.

Quando se descobriu, em diferentes pases, o mesmo repertrio de contos, 
com pequenas variaes de costumes, a atividade dos folcloristas tornou-
se intensa. Essa atividade permitiu a interpretao das lendas e 
principalmente sua classificao; foram unidos entre si e compiladas. 
Miss Roalfe Cox publicou anlises notveis sobre Cendrillon (Gata 
Borralheira) e Peau d'Ane (Pele de burro) (Folklore Society, Londres, 
1893).

Com o estudo dessas narraes maravilhosas, a anlise das crenas e dos 
costumes permitiu evocar perodos pouco ricos em comentrios. Contudo, o 
folclore no se interessa unicamente pelo passado; dedica-se tambm ao 
presente, tanto em economia poltica como em instituies, ofcios ou 
atividades populares. Saintyves assim o definiu:  a cincia da vida 
popular no seio de sociedades civilizadas.

Embora a explicao dos contos seja mais ou menos fantasista, este mtodo 
de observao permitiu ligar os fatos uns aos outros de forma que 
parecessem, de incio, disparatados. O folclore permitiu preencher essas 
lacunas e acompanhar a evoluo da psicologia coletiva mesmo fora das 
grandes civilizaes que nunca foram homogneas. Essa cultura 
tradicional, devida  massa popular  margem do ensino oficial, tem uma 
base permanente que, apesar de incompleta, assegurou definitivamente a 
estabilidade das
sociedades sucessivas. Essa camada inferior, verdadeira corrente 
cultural, transmite-se de gerao em gerao e  graas a ela que os 
contos foram conservados.

CAPTULO II DIVULGAO DOS CONTOS 1  Teoria das Migraes

Gaston Paris estudou, depois de Benfey, a migrao do contos orientais na 
literatura da Idade Mdia.  Cosquin, o ingls Clouston, o alemo 
Landeau, estabeleceram paralelos entre as novelas de Boccio e as fontes 
orientais.

Buscaram, para cada conto, a estrada percorrida: foi a teoria dos motivos 
errantes ou a teoria das migraes. Max Mller aponta sempre a ndia como 
fonte comum e o russo Stassov (1868) diz a mesma coisa e foi por isso 
criticado pela sua falta de patriotismo.

 preciso analisar com ateno as semelhanas, as condies histricas, a 
fim de reconhecer o tema pois se o conto toma de emprstimo o seu motivo 
ele adquire, de formo mais ou menos rpida, um carter nacional. Os 
russos Vesselovski e Vsevolod Miller determinaram as trajetrias dos 
motivos emprestados e reconheceram uma influncia turco- monglica.

Joseph Bedier (Fabliaux), conforme a escola antropolgica, manifestou 
dvidas sobre o mtodo de Benfey; julgou-se que as aproximaes fossem 
vs e a busca limitou-se ao que ligava essa obra  poesia nacional. O 
russo Oldenburg, zombando das dificuldades, provou serem os fabliaux 
oriundos da antiga ndia. O tcheco Polivka e o alemo Bolte forneceram 
tambm uma relao dos possveis paralelos existentes entre cem contos de 
Grimm (Remarques sur les contes enfantins et familiaux de Grimm 
(Observaes sobre os contos infantis e familiares de Grimm).

Com efeito,  curioso notar que as aventuras de Ulisses se assemelham s 
de Sindbad, o marujo e que o prlogo de Mil e uma noites relata a 
histria de uma jovem chinesa, conto budista, traduzido para o chins no 
sculo III (traduo Chavannes, conto n. 109). Miss R. Coxe, numa 
monografia, conta quatrocentos variantes de Pele de burro e Gata 
Borralheira. Alm das dos autores j citados, notemos as variantes 
erguidas por Ren Basset, Dhnhardt, Adolphe Pictet, Buslaiev e 
Afanassiev.

2.  A influncia da ndia

Quando o conto primitivo, ou assim suposto, se libertou de todos os 
elementos transitrios e permanentes, sua variante foi discernida na 
literatura hindu, que penetrou na China antes do budismo. A maioria dos 
contos so encontrados no Extremo Oriente, dois sculos antes da nossa 
era. A influncia budista, as invases monglicas contriburam para a 
divulgao dos contos hindus que formam a base das colees folclricas.

3.  Migrao dos Contos e dos povos

A migrao dos contos nos  desconhecida e podemos quanto muito construir 
teorias mais ou menos plausveis conforme nossa imaginao.
Alm da influncia budista e das invases monglicas, em conseqncia das 
conquistas rabes, toda a costa barbaresca e a Prsia sofreram a 
influncia asitica. Eis porque Mil e uma noites tm influncia prsica 
cuja cultura provinha da ndia. E preciso pesquisar a marcha do conto em 
relao  marcha do indivduo.

A migrao dos povos foi estudada por Elliot Smith, Maximo Soto Hall; os 
antigos egpcios seriam descendentes dos Maias que haviam emigrado para a 
frica. A Atlntida, esse antigo continente, teria formado uma ligao 
natural entre a Europa e a Amrica. Entretanto, conforme a notvel teoria 
de Wegener sobre a separao dos continentes, a Amrica seria um bloco 
que se desprendeu da Europa e da frica. Realmente essa ciso parece que 
se produziu antes da apario do homem. Contudo, se nos referimos ao 
sbio americano Libbey, que estudou as propriedades radioativas do 
carbono contido nos vestgios orgnicos (o C 14), nossas civilizaes 
datariam de trinta mil anos (poca pleistocena). Ora, h trinta mil anos, 
a sia e a Amrica se juntavam: O Alasca e a Sibria ainda no haviam 
sido separados pelo estreito de Behring. Canals Frau (Prhistoire de 
l'Amrique, 1953),  de opinio que grupos de emigrantes asiticos 
aventuraram-se nas plancies norte- americanas, numa poca imediatamente 
anterior ao ltimo mximo da glaciao Wisconsiniana. Conforme os 
gelogos e Antevs, essa ltima glaciao, denominada Mankato, ter-se- ia 
produzido aproximadamente em 25.000 a. C.

Canals Frau supe que nova onda emigratria asitica tenha-se produzido 
na poca mesoltica; essa civilizao esquim teria, h trs ou quatro 
mil anos, dominado a Sibria e se teria fixado no litoral rtico da 
Amrica. Esses homens teriam atravessado a Amrica de norte a sul a fim 
de atingirem a Terra do Fogo.

 indiscutvel que nossos antepassados viajavam e s a falta de 
documentos deu origem ao julgamento de que esses povos se ignoravam uns 
aos outros, Serviam-se das correntes naturais e a expedio Kon Tiki 
provou ser possvel a travessia do oceano, de jangada, desde a Amrica 
at os Mares do Sul. As mones favoreciam as viagens entre o Oriente e o 
Ocidente. Os malaios invadiram as ilhas polinsias com a ajuda de grandes 
vapores providos de balanceiros.

Os monumentos deixados pelos habitantes da antiga Amrica testemunham uma 
civilizao adiantada injustamente podada em todo o vigor da sua seiva, 
quando da invaso espanhola, no sculo XVI. Eis porque, nas margens do 
Mississipi, os rochedos esto eivados de caracteres que parecem ser 
fencios; rochedos trmulos que evocam monumentos drudicos; no 
hemisfrio austral, imensas runas de outeiros assemelham-se s 
sepulturas do norte da sia. A admirvel pirmide de Paplanta, a 
fortaleza europia de Xochialco, o emprego do cimento no templo situado 
nas imediaes de Santa F, fazem supor que a Amrica era conhecida pelas 
civilizaes hindus e europias antes da viagem de Cristvo Colombo; a 
tradio deve ter-se apagado um pouco e a mensagem das antigas 
civilizaes nem sempre foi transmitida.

Eis porque, nas imediaes de Montevidu, uma pedra tumular registra, em 
caracteres gregos, que um capito heleno aportou nessa terra americana no 
tempo de Alexandre. Um contemporneo de Aristteles tambm pisou o solo 
brasileiro. Nas crnicas, Madoc, filho do prncipe de Gales, abriu velas 
em 1170, dirigindo-se para o oeste e descobriu terras frteis; po 22 rm, 
j em 942, os normandos haviam aportado na Groenlndia passando pela 
Islndia. Isto justificaria terem tribos do Missouri tambm falado a 
lngua cltica. Humboldt admite que os trtaros e os mongis tenham 
passado do norte da sia s regies setentrionais da Amrica antes do 
sculo VI; os chineses comerciaram com os americanos bem como o 
cartagins Himilcon. Salomo e Hiram enviaram os fencios para as regies 
americanas conhecidas, sem
dvida, pelo nome de Ofir e Trsis.  um erro julgar que os povos antigos 
eram selvagens e brbaros; nossa falta de conhecimentos a esse respeito 
no prova essa assero. Cristvo Colombo deve ter ficado surpreendido 
quando encontrou entre esses selvagens a nossa cruz latina que figurava 
ainda nas esculturas colossais da cidade de Palenque, no Mxico.

Depois da sensacional descoberta do Vixenu, por Ren joffroy (1952), 
compreende-se que o prestgio das artes gregas e italianas estendia-se  
Glia cltica. O oppidum do monte Lassois (perto de Chtillon- sur-seine) 
seria uma base dessa rota do estanho; e os mveis funerrios, as jias 
talo- gregas do sculo VI antes da nossa era, a bacia de bronze de 
fabricao etrusca, encontradas nessa parte setentrional da Borgonha, 
ento somente cltica, colocam um enigma que provoca dvidas sobre as 
influncias da Etrria ou das regies greco- cticas de passagem pela 
Grcia.

Os egpcios conheciam os movimentos planetrios e as dimenses do nosso 
globo terrestre quando Galileu quase foi queimado vivo por ter adotado o 
sistema de Coprnico. Nossas descobertas modernas j haviam sido 
precedidas pela Escritura, nossas verdades fsicas foram por muito tempo 
desconhecidas e ignoradas, enquanto que os Livros Sagrados ficam no 
limite da verdade e na harmonia de nossas mais recentes observaes, cuja 
exatido so apenas confirmadas por nossas pesquisas cientficas; em 
compensao no havia na Antigidade a mesma concepo do tempo e do seu 
emprego de hoje; conhecimentos provinham de uma reflexo amadurecida no 
recolhimento e no silncio, alheio a qualquer agitao.

Alm dos mercadores, as guerras muito contriburam para a divulgao dos 
contos. Essa divulgao deve-se s conquistas de Alexandre da Macednia e 
ao perodo helnico (do fim do IV ao II sculos antes da nossa era); 
depois as conquistas rabes (1. milnio da era crist) e finalmente  
poca das cruzadas (do X ao XII sculos).

A transmisso oral foi muito importante. Foi dessa forma que Pitgoras 
tomou conhecimento das religies da ndia, quando j convivia com os 
magos da Caldia. Esse sbio grego, contemporneo de Buda  que talvez 
tenha encontrado  e de Confcio, participava das idias do hindu e do 
chins e esses trs homens pregavam o mesmo evangelho. As descobertas e 
os pensamentos existem, pois, no tempo e se transmite de forma 
desconhecida.

Walter Scott observa que a impresso era inexistente, os vedas e os edas 
noruegueses, a Bblia s foram escritos depois de haverem sido 
transmitidos oralmente. Deve-se  inspirao popular a criao da 
Odissia e dos Niebelungen.

CAPTULO III INTERPRETAO DAS LENDAS I.  Sentido profano

As lendas so sujeitas a interpretaes bastante diferentes que se 
contradizem ou se completam. Loeffler- Delachaux (Symbolisme des contes 
de fes (Simbolismo dos contos de fadas, 1949) interpreta- as no sentido 
profano, sacro ou inicitico.

1. Teorias astrais ou naturalista

Os povos divinizaram as grandes manifestaes da natureza. Se Max Mller 
e Bral Mlanges de mythologie et de lnguistique (Miscelnia de 
mitologia e lingstica), cogitam nos fenmenos solares e no combate  
escurido, Kuhn e Schwartz so de opinio de que no foram os fenmenos 
regulares que chocaram a imaginao mas sim os espetculos raros e 
inesperados (relmpago, trovo); , pois, a escola meteorolgica. Para 
Ploix (La nature des dieux (A natureza dos deuses) a luz  que  adorada 
e conduz ao estudo dos fenmenos crepusculares. Mannhardt encontra nas 
lendas explicao dos mistrios da vegetao, enquanto que Regnaud e 
Renel Evolution d'un mythe (Evoluo de um mito) pensam no mito do fogo. 
Saintyves descobriu nesse mito antigas cerimnias estacionrias 
praticadas por ocasio do ano novo e da primavera.

Deulin em Contes de ma mere l'Oye (Contos de minha me gansa) refere-se a 
Husson para quem as sete esposas de Barba Azul tornam-se as sete auroras 
da semana. Deulin mostra que com um pouco de imaginao  possvel provar 
que Virgnia  uma aurora que procura esconder-se de Paulo, que nesse 
caso seria o sol. Dupuis (Origine de tous les cultes) (Origem de todos os 
cultos) mostra que Napoleo s pode existir sob a forma de um deus solar. 
Entretanto, prosseguindo-se o trabalho de Afanassiev Contes populaires 
russes (Contos populares russos), em 8 volumes, Miller (1833- 1889) 
compara as variantes entre si.

 todavia verdade que o fetichismo foi criado para isolar essas foras 
invisveis e que sua influncia sobre as lendas  certa.

Os mitos meteorolgicos, os mitos do fogo, da origem e da morte humana 
podem pois basear-se nessas criaes literrias, mas outras teorias 
vieram modificar esses temas iniciais.

2.  Teoria mitolgica

Os irmos Grimm elevaram a criao dos contos  infncia pr- histrica 
da ptria. Chega-se assim  escola precedente Gubernatis Mythologie 
Zoologique (Mitologia Zoolgica), acha que esses mitos pertencem a um 
naturalismo infantil; d, enfim, grande importncia s formas animais e 
chega, com seus trs livros,  tese da reencarnao: Schelling Essai sur 
les mythes (Ensaio sobre os mitos) (1793), v nesses mitos a conscincia 
individual de um povo aliada a uma significao religiosa.

3.  Teoria lingstica. Escola Filolgica

Os trabalhos de Baudry, Darmesteter, Van den Heyn e Angelo de Gubernatis, 
so trabalhos de lingistas. Com Max Mller esses homens estudam as 
lendas desde a deformao de algumas palavras que puderam provocar um 
obscurecimento do sentido primitivo original. Max Mller, por 
aproximaes foradas, procura demonstrar no sentido da tese solarista. 
Desta forma se Dyaus na poca vdica significava cu, transforma-se em 
Zeus. Dontenville explica assim a lenda de Gargntua. O russo Marr 
estudando Tristo e Isolda cria sua sesso de Semntica,

 muito possvel que os povos tenham empregado termos que, no curso de 
suas migraes, perderam o sentido ou foram desnaturados; a lenda grega 
fez emprstimos da ndia e  muito provvel que essa confuso tenha sido 
voluntria. Os fillogos, comparando as razes das lnguas entre si com 
as do snscrito, propuseram sbias etimologias que foram substitudas por 
outras mais sbias ainda; e assim tudo encaminhou-se para o ceticismo 
geral.

4.  Teoria antropolgica (ou gerao espontnea dos assuntos)

Para Taylor, Mannhardt, Andrew Lang, Gaidoz os contos e as lendas 
refletem modos de pensar primitivos. Os povos civilizados herdaram esses 
contos e lendas do passado; so sobrevivncias religiosas e culturais 
extremamente elementares fundadas no animismo, espiritualizao dos 
fenmenos da natureza ambiente.

Mas, as leis do desenvolvimento da humanidade nos levaram a no mais 
considerar as civilizaes anteriores como pocas de barbrie. O totem, 
objeto- tabu, a palavra misteriosa, representam valores mgicos que a 
escola antropolgica no soube definir. Frazer, no seu Le rameau d'or (O 
ramo de ouro) (12 volumes, 1911- 1915) afirma que a magia precede o 
animismo, isto , a espiritualizao da natureza; a magia , portanto, o 
embrio da cincia e da religio. Essa Teoria prosetivista  combatida 
pelos etngrafos soviticos.

5.  Escola Alegrica

Creuzer v no mito, uma alegoria moral, o smbolo de uma antiga 
filosofia, nascida no Oriente e divulgada na Grcia em linguagem 
figurada. A aparece novamente a opinio dos filsofos neoplatnicos da 
escola de Alexandria (Plato e Porfrio), Frazer: The origin of totemism 
(A origem do totemismo) mostra a conexo do mito com o totemismo 
primitivo.

6.  Teoria orientalista ou teoria dos emprstimos

O orientalista alemo Benfey, quando publicou em 1859 a coleo de contos 
hindus o Pantchatantra, descobriu uma extraordinria semelhana entre os 
contos snscritos e os europeus.

Essas narraes, que circulavam oralmente, foram compiladas na ndia; o 
budismo tibetano mostrou-se particularmente ativo. Contudo, no seria 
possvel afirmar com segurana que esses contos tenham sido criados na 
ndia. Bizncio e a literatura monglica desempenharam papel importante 
na exportao dessas lendas que, da Sria e da Prsia, se infiltraram no 
mundo rabe; as cruzadas relataram esses contos maravilhosos e a Espanha, 
com as invases sucessivas, usufruiu todo o seu encanto.

Pictet: Origines indo- europennes (Origens indo- europias) (1858) apoia 
Benfey e mostra a importncia da cultura dos rias primitivos. Esses 
trabalhos foram continuados por Cosquin, Gaston Paris, Charles Bdier, 
Gdon, Huet, Bouslaiev e Afanassiev.

7.  Teoria geogrfico- histrica ou Escola Finesa

Anderson e H. Gaidoz contriburam com um exame sistemtico e escrupuloso 
das variantes, com diagramas cronolgicos e mapas geogrficos dos 
itinerrios percorridos pelos assuntos. O catlogo dos contos de Aarne 
(1867- 1925)  arbitrrio na sua diviso, mas facilitou a tarefa de 
Andreiev (1929), que adaptou esse livro ao folclore russo. No se 
desvendando a forma primitiva, Sidow tentou comparar os contos entre si.

8.  Escola potica- histrica. Teoria comparativista

Criada por Vasslovski (Index bibliographique, 1921), esta teoria trata 
da influncia oral e escrita da
poesia e depois do papel da religio crist. E a procura do gnero 
potico (epopia, poesia, lrica, drama), das variedades, das formas. 
Vsevolod Miller, abandonando a Escola dos Emprstimos procura analisar os 
costumes nas canes de gesta: tudes de la littrature populaire russe 
(Estudos sobre a literatura popular russa); a anlise crtica foi a obra 
de Orestes Miller. Essas aproximaes contraditrias, essas comparaes 
arbitrrias, foram postas em evidncia por Skafttymov: Potique et Gense 
dos Bylines (Potica e Gnese das Bilinas, 1924). A escola russa moderna 
preocupa-se com o meio (folclore dos camponeses e dos operrios), que 
traduz a vida do povo com Sokolov: Le folklore russe (O folclore russo, 
1945) e Pryjov.

9.  Teoria psicolgica. Escola de Freud

Wundt: Psychologie des peuples (Psicologia dos povos) analisa os mitos 
com as condies psicolgicas do povo (estados de sonho, alucinao 
mrbida). Laistner, von der Leyen no conseguem dar grande importncia  
sua teoria.

Freud, com seus alunos Abraham, Rank, Riklin, v nos mitos a expresso de 
desejos persistentes da mesma natureza dos que se manifestam nos sonhos. 
Quanto mais a censura social se desenvolve, mais a civilizao se 
complica. Freud mostra ainda que as aspiraes fundamentais da 
humanidade, que encontram satisfao nas diferentes crenas religiosas e 
os vrios estados emocionais tm como fonte conflitos intrapsquicos que, 
do ponto de vista ontognico remontam  nossa primeira infncia e, do 
ponto de vista filognico, aos nossos primeiros ancestrais humanos.

A escola austraca, porm, abusou demasiadamente dos fenmenos de ordem 
sexual e Regnaud: Le Rig- Veda et les origines de la mythologie (O Rig- 
Veda e as origens da mitologia)  de opinio que o crebro humano no 
evoluiu h milhares de anos: Renel, Evolution du mythe (Evoluo do 
mito).

Loeffler- Delachaux: Symbolisme des lgendes (Simbolismo das lendas, 
1950) pensa num fascnio curativo, num poder teraputico para as doenas 
da alma. Os contos servem para manter o equilbrio psicolgico e  assim 
que os Faras enganados por suas esposas, as ascenses milagrosas nas 
situaes inesperadas, as jovens grvidas milagrosamente fecundadas pelo 
deus Nauli ou Jpiter e todas essas fices nasceram de circunstncias 
precisas. Essas narraes imaginrias so pois a compensao dos nossos 
sentimentos de inferioridade e o subconsciente acrescenta-lhes uma 
supercompensao.

10.  Origem histrica. Escola Evemrica

Schelling publica em 1793 um ensaio sobre as lendas histricas. O cerne 
do mito contm a verdade sob uma forma histrica. Spencer cr que o culto 
dos antepassados origina-se nas religies. A escola Evemrica, sculo IV 
a. C. j pretendia serem os mitos provenientes de acontecimentos 
histricos e que seus personagens reais haviam sido elevados  dignidade 
de deuses. Essa teoria foi retomada por Hoffmann.

Realmente, nossos heris picos so a combinao de diversos personagens 
histricos e se nossas canes de gestas comportam inexatides, esses 
protagonistas convergem para a individualidade do heri.

II.  Sentido sacro e inicitico 1.  Esoterismo e Magia
O esoterismo  subjacente em muitos de nossos atos. A religio catlica 
no pode se livrar dos ritos de religies antigas e os crios e o incenso 
provam a sobrevivncia das oferendas, bem como a tonsura do padre indica 
o stio da espiritualidade.

O coroamento  uma cerimnia esotrica: os braceletes tornam o rei 
prisioneiro de seu povo, o cetro  a vara mgica, e a coroa o emblema da 
flor ritual de mil ptalas. Th. Briant deu: Le goland, n. 108 (A 
gaivota) preciosas informaes sobre o coroamento da rainha Elisabete da 
Inglaterra que, vestida com sua roupagem de linho, est ritualmente nua 
para a uno real.

Os povos da frica, com seus conhecimentos sobre magia, se aproximam de 
uma verdade transcendente que nos escapa. Os ritos esotricos eram, 
porm, muito mais empregados em tempos passados e Victor Emile Michelet: 
Le secret de la chevalerie (O segredo da cavalaria) escreveu: Os 
construtores de catedrais inscreveram no secular silncio da pedra o eco 
da palavra perdida que os predestinados ouviro. Se os mitos sagrados 
fossem divulgados seriam profanados e com isso perderiam suas virtudes 
msticas, diz Lvy- Bruhl: La mythologie primitive (Mitologia primitiva, 
1935). Assim  que o sentido profundo e a virtude eficaz so revelados 
somente aos iniciados, os no iniciados s encontram nesses mitos um 
divertimento. Os contos da Nova Guin expem essa eficcia mgica.

Ora, todos os povos fizeram uso da magia. No evangelho assistimos aos 
fenmenos da levitao,  multiplicao dos pes e dos peixes; se o 
alcance das palavras de encantamento nos escapa, no deixamos de sentir 
que esses ritos se destinam a manter a coeso de uma civilizao (Van 
Gennep). Saintyves: Les contes de Perrault (Os contos de Perrault, 1923), 
definiu as provaes e as tentaes com suas encenaes prestigiosas que 
so ritos de iniciao.

Este elemento sobrenatural requer uma explicao a qual tentaremos 
evidenciar no estudo de algumas lendas. Pois esses costumes de iniciao, 
provindo de um conhecimento profundo e de um ritual desenvolvido esto 
to alterados que perderam o seu sentido original. O smbolo do 
casamento, em que a bno coloca os eleitos sob a proteo de um poder 
superior; o elo sem princpio nem fim, cadeia indissolvel que une dois 
esposos romanos; o elo deve ser de ouro puro pois que a mulher  
acorrentada pelo mrito e pelas qualidades slidas de seu noivo; mas esse 
elo liga a vontade do operador ao gnio benfazejo personificado pelo 
fluido invisvel.

O simbolismo do casamento  muito vasto, mas o ritual da morte  
freqentemente tido como uma espcie de sortilgio  mereceria tambm ser 
estudado. A magia popular deveria ocupar-se do modo de conquistar o poder 
com Fausto e D. Juan. Surgiram ento os feiticeiros, as invocaes, os 
filtros, os remdios e os venenos; essa magia natural penetrou nos 
contos.

O sistema cabalista  de origem esotrica e de esprito iniciado  serviu 
para a construo das catedrais. A constituio da sociedade  que teve 
seu apogeu no reinado de So Lus  a msica dos gregos de Eleusis, o 
cantocho provm da Cabala que serviu para estabelecer os monogramas 
rabes, as esttuas da ndia, as regras para a seo do ouro. Este 
ensinamento profundo, freqentemente insuspeitado, constitui um precioso 
patrimnio da inteligncia humana.

Os prprios jogos tm origem esotrica (jogos de cartas, buena- dicha, de 
xadrez, de damas, gamo, domin, jogo do ganso, roleta, marelinha, 
esconde- esconde, etc.). As canes populares, muitas vezes, so 
iniciticas (Les compagnons de la Marjolaine, la tour prends- garde, 
Cadet Roussel).

O valor dos algarismos  nesse caso muito importante. O texto pode ser 
dividido em livros, captulos,
versculos, alneas, cujo nmero  ditado, (poema em doze cantos, 
tragdia em cinco cantos). s vezes  o nmero de personagens, o nmero 
de anos de sua existncia, o nmero de seus combates. O escritor 
multiplica os algarismos para no se dar a conhecer e os acontecimentos 
descritos ultrapassam, dessa forma, a realidade. As profecias entram 
nessa categoria. O nmero 3, emblema sexual em Freud,  a base do 
princpio divino que reaparece em todos os cultos, culto de Mitra, triade 
teolgica cltica, ternrio de Pitgoras. So trs as penitncias e 
existem trs etapas essenciais no aperfeioamento individual; as fadas, 
como no teatro, do trs golpes com a varinha; dez, nmero de Ado e Eva, 
falo e ovo, so a base da filosofia pitagrica.

Os ritos podem derivar para a superstio, o fetichismo, mas a 
interpretao desse simbolismo  sempre delicada.

2.  Religio e origem sacra

As teses religiosas so numerosas. O Pe. Banier, com sua Escola bblica, 
via nos mitos pagos, a revelao divina; Brard, na sua tese religiosa, 
explica as cerimnias rituais.

Lenormant e Gladstone interpretam as personalidades dos deuses a partir 
de personagens bblicas. O Apocalipse de So Joo  uma obra esotrica 
cujas palavras- chave servem a religies e ordens assaz diferentes. As 
religies empregam palavras de encantamento que devem produzir o mximo 
de efeito alm de processos na aparncia muito simples; eis a uma forma 
de magia (Anne Osmont). Diz o conde de Larmandie a esse respeito: Esses 
ritos que nada mais so do que a realizao de smbolos, tm poder 
natural sobre o mundo astral, que contm em potencial e germe todo o 
desabrochar do mundo fsico. A palavra smbolo significa, principalmente, 
resumo, quintaessncia; atingimos, pois, completando- o, a causa segunda 
na rbita de nossa vontade: desencadeamos o dinamismo produtor do 
fenmeno. F. Ch. Barlet (A iniciao, janeiro de 1897), diz que a 
religio nas suas manifestaes exteriores torna-se apenas uma alta magia 
cerimonial.

Se Lvy- Bruhl afirma que o homem primitivo no tem o sentimento do 
divino, parece que para Piobb: Formulaire de haute- magie (Formulrio de 
alta magia) ele est presente em toda parte mas suas leis so difceis de 
discernir; so muitos os vus que encobrem esses segredos que s se 
exprimem por meio de smbolos. Contudo, toda essa cincia que provm dos 
colgios iniciticos, no est perdida. O cristianismo no soube se 
eximir de leis anteriores; as idias jurdicas em curso formaram o 
direito cannico; as vestes sacerdotais provm de Bizncio.

3.  A arte sagrada da ndia

Estas lendas, encontradas na ndia, pertencem  mitologia hindu que 
compreende os Vedas (hinos), os Bramanas (comentrios), as Sutras e 
Upanichads (manuais de devoo) e finalmente as compilaes de lendas 
Puranas.

Mallarm: Les dieux antiques (Os deuses antigos) fala desse bero 
misterioso, os Arias, situado no centro da grande sia, no vale do Oxo e 
do qual temos poucas referncias. Suas tribos nmades emigraram para os 
pases eslavos e depois para a Prsia, a ndia, a Grcia e a Itlia. A 
mitologia persa, no seu falar Zenda, devia influir sobre a mitologia 
norse para criar a epopia escandinava.

Varuna, autor do mundo, exprime o instinto monotesta dos cantos vdicos. 
No  absurdo afirmar que os
trs deuses da ndia (Varuna, Agni e Indra) representam diferentes 
aspectos do Ente Infinito. Eis porque Deus, falando com Moiss, diz ns e 
no eu. Outros trs deuses sucedem aos trs deuses antigos: o deus da 
criao Brama, o deus da conservao Vichnu e o deus da destruio Civa, 
portador do terceiro olho: R. Fougre, Contes et lgendes de l'Inde 
(Contos e lendas da ndia). Quanto a Buda, seria apenas um dos mais 
recentes avatares do Vichnu e o prprio Jesus Cristo seria o reflexo 
desse Deus. Um livro curioso e inspirado, La vie de matres (A vida dos 
mestres), de Baird T. Spalding (Ed. Leymarie, 1946), retoma esse tema.

 digno observar que a crena na transmigrao  reencontrada na 
literatura cltica;  que a religio drudica, de uma amplido esquecida, 
estendia-se at a Grcia e com toda certeza se achava em comunicao com 
a sia. Desta forma, depois da morte, a alma se reencarna tomando nova 
forma, ora superior, ora inferior, relativamente  vida anterior. Essa 
sucesso de existncias pode ser humana ou animal e ter lugar neste ou em 
outros mundos. A sociedade bramnica  estabelecida em castas, cujos 
grupos so hereditrios e hierarquizados; em seu pinculo reinam os 
brmanes, os padres.

No sculo VI antes da era crist, porm, o bramanismo se transforma sob a 
impulso de Gotama, o Buda. Depois de reencarnaes sucessivas, o 
indivduo chega ao aniquilamento total, o Nirvana. Por suas concepes 
mais amplas e mais sociais, todo homem tem acesso  via religiosa.

Lotus de Paini observa que o Tao seria uma fora oculta ao redor da qual 
todos os valores morais evoluiriam. Esse dinamismo csmico seria 
produzido por elementos eletrizantes Iang e Iin que se aparentam ao 
prton e ao elctron. Essa sabedoria espiritual se obtinha por meio da 
meditao realizada sobre regras precisas; a formao dos rgos da 
clarividncia s podia se produzir aps as duas fases impostas: a 
purificao do corpo astral e a iluminao.

Langlois (Monuments littraires de l'Inde, 1827) analisou essa literatura 
snscrita cujos Vedas (4500 a. C.) so os livros do conhecimento e os 
Vidia, os da cincia. As quatro obras Upanichad tratam da natureza de 
Deus, os Upavedas so relativos  vida corrente. Valmiki escreveu o 
Ramaiana, as aventuras do deus Rama e Viasa (1000 a. C.) e  o autor de 
Maabarata que descreve as desgraas de uma famlia real. O Bagavad- Gita 
 um episdio desse trabalho: o deus revela ao seu favorito Ardjuna a 
origem e a natureza do universo.

Essa literatura  escrita em snscrito, lngua dos padres e da alta 
sociedade mas entremeada de dialeto Pracrit, linguagem de classes 
inferiores. Sob o efeito das invases o snscrito foi esquecido e s em 
alguns santurios  encontrado. Observemos os recentes estudos de Jones, 
Wilkins, Colebrooke, Wilson, e Langlois.

Quanto ao grande livro hindu, o Pantchatantra, foi traduzido do snscrito 
para o phlvi por ordem do rei Choros, no sculo VI. A importncia desse 
livro  considervel uma vez que foi traduzido em antigo persa e em srio 
(Calila e Din); traduzido em rabe (sculo VIII) em hebraico (sculo 
XII), passou pela Espanha e sua traduo latina data do sculo XIII, 
quando chegou  Frana e  Alemanha. Paralelamente a esse eixo, sua 
traduo rabe penetra na Grcia (Stphanit et Ikhnilate) e na lngua 
eslava (XII e XIII) para alcanar, enfim, a Rssia.

4.  Influncia da Igreja catlica

Todas as religies empregam os mesmos smbolos, mas os colgios 
sacerdotais velaram a verdade aos profanos a fim de reserv- la aos seus 
iniciados; velaram- na de tal forma que a sufocaram e no souberam
mais separar as fices. Contudo as religies refletem a conscincia 
humana, as relaes sociais entre os indivduos, toda a experincia de 
nossa vida. A divulgao dos contos  devida, em grande parte, a uma 
propaganda religiosa. O budismo no foi o seu nico agente de difuso, h 
tambm o druidismo, o catolicismo e todas as religies. Os missionrios e 
os exploradores propagavam lendas bblicas. A religio que nada mais  
que esoterismo, pois que pode existir apenas em estado de mistrios, age 
pelo seu maravilhoso e provoca uma espcie de entorpecimento da alma. 
Schelling escreve: Introduction  la philosophie de la mythologie 
(Introduo  filosofia da mitologia): O contedo da religio  
puramente espiritual e jorra, desta forma, das profundezas mais intimas 
da vida humana.

A Bblia  uma grande lenda histrica que abrange vrios sculos e no 
alguns anos. Obra de vrias geraes concentradas na nica vida humana, 
ela nos ensina o deslocamento dos nmades, a migrao do povo de Abrao 
que se estendeu durante numerosos anos. A influncia bblica, por seu 
maravilhoso, se revela em todas as artes e tambm nas procisses, nas 
festas e na prpria vida.

5.  Criao do mito do diabo

O antagonismo entre Deus e Satans se encontra em todo o decorrer dos 
temas orientais, persas e cristos. E Ariman, a grande serpente da noite, 
adversria de Ormuzd. O princpio do mal vem da mais remota antigidade. 
Mas, na religio catlica, Deus criou ele mesmo seus anjos cados, 
enquanto que Ariman  um poder primordial, anttese da Bondade.

A fim de combater a sensualidade, a curiosidade, os prazeres da carne e 
do esprito, a Igreja catlica, serviu-se do personagem de Satans e lhe 
criou uma personalidade mais intensa; dos mistrios da Idade Mdia ficou-
lhe a truanice que lhe deram os primeiros dramas. Assim nasceu a bruxa, 
serva do mau esprito. Os mtodos de feitiaria mostram essa alucinao 
coletiva, comparvel ao Grande temor; mas esses mtodos terminaram de 
maneira trgica. A Inquisio incumbia-se de conduzir a um ponto 
cruciante essa extraordinria criao do esprito.

Assim  que Loeffler- Delachaux v nos contos de fadas um protesto contra 
essas regras inflexveis, a fada que reabilita a sacerdotisa ou a 
feiticeira druida injustamente condenada.

6.  Concluso

Quer se trate da Escola filolgica, naturalista ou histrica, a origem e 
a interpretao das lendas s tem sentido a partir de uma equao 
pessoal; cada sistema cr possuir a verdade. Mas a abundncia, de 
assuntos iguais em cada pas, a esperana que deles se desprende, a 
perfeio de suas formas poticas deixam prever a busca de temas 
iniciticos capazes de elevar o indivduo. A aventura maravilhosa, com 
sua surpreendente riqueza de alma, nos alegra e nos instrui.

SEGUNDA PARTE ESTUDO DAS LENDAS CAPTULO I FAUSTO ou o homem que vende 
sua alma aos poderes do mal
Esse personagem imortal de Goethe  s vezes de Marlowe  soube, depois 
de velho, reconquistar a juventude, acumular bens, governar seu esprito 
com uma compreenso, quase divina.

O homem contrai desta forma uma aliana sobrenatural a fim de se alar a 
um nvel superior e, abandonando seu arcabouo original, projeta-se num 
outro ente espiritual.

Este conhecimento  tributrio da dualidade da alma humana; e 
Mefistfeles endossa nossa dvida e nossos defeitos. Satans se incumbe 
de nossos crimes e de nossas baixezas;  a vlvula que permite ao homem, 
se libertar. Mas, depois de haver vendido seu bem mais precioso, o homem 
tenta zombar do Esprito do mal e almeja finalmente o esprito supremo da 
Bondade.

1.  A presena do diabo

Desde a criao do Mundo o diabo tenta nos corromper; ele  a origem da 
maldio celeste; evoca o assassnio de Abel, provoca o dilvio e a 
destruio de Sodoma. Se quer tentar Jesus incita tempestades e violenta 
as virgens.

As concepes demonolgicas encontram-se entre os povos mais diversos: 
rabes, babilnios, assrios, bem como no pensamento hebraico, na 
religio persa, na doutrina crist, na filosofia grega. Tiveram lugar 
dominante na vida e nos escritos.

Mas o cristianismo, com o fito de despertar a ateno do pblico cansado 
de dissertaes filosficas de mistrios, criou o personagem literrio do 
diabo. No  mais uma divindade inatingvel mas apenas um ser 
ridicularizado, vlvula indispensvel para o rigor do catolicismo e da 
justia divina.  assim que aparece em Le jeu des Vierges sages et des 
Vierges folles (O jogo das virgens ajuizadas e das virgens loucas) em La 
premiere joie de Marie (A primeira alegria de Maria) etc. Cohen busca 
esse rasto maravilhoso no seu Thtre franais au Moyen Age (O teatro 
francs na Idade Mdia).

2.  As duas formas de lenda

Fausto reflete a gerao em que evolui; a concluso difere conforme o 
gosto do autor ou o interesse da religio. Esse homem que vendeu sua alma 
morre amaldioado, abandonado pelo cu:  o drama de Marlowe e dos 
protestantes. Em compensao, esse homem orgulhoso que se perverteu para 
satisfazer sua curiosidade natural e que logo em seguida se revoltou 
contra Satans receber o perdo. Surge ento o drama cristo de Goethe.

3.  Origem da lenda

A primeira forma da lenda parece ser oriunda da sia, com La lgende de 
Thophile (A lenda de Tefilo), de que Eutiquiano, sacristo da igreja de 
Adana, teria sido testemunha ocular.

Tefilo, vidama  administrador  muito estimado,  injustamente 
destitudo de seu cargo. A fim de reencontrar seu posto, pediu auxlio a 
um mgico. Satans concluiu o pacto. Apesar do xito, Tefilo, 
arrependido, reza durante quarenta dias e quarenta noites implorando  
Virgem Maria a restituio do ato satnico. Tefilo confessa publicamente 
o seu ato e morre. Essa lenda foi muito apreciada na Idade Mdia: Saint- 
Bernard, Voragine, Rutebeuf utilizaram- na. No tmpano do portal norte da 
Igreja de Notre- Dame de Paris acha-se representado esse milagre; na 
mesma ocasio, Viollet- le- Duc pe em cena o artista Biscornet assinando 
um pacto com o demnio a fim de completar sua obra (Serralheria das
portas de Notre-Dame de Paris).

4.  Outras formas da lenda

Em 1220, Cesrio d'Heisterbach escreveu Histoire de Militarius (Histria 
de Militarius) que, depois de uma vida de deboche, vende-se ao diabo e, 
finalmente, obtm o perdo da Virgem. Com a Lgende du chevalier qui 
donna sa femme au diable (Lenda do cavaleiro que deu a mulher ao diabo) 
de origem picarda (sculo XIV), a virgem, tomando o lugar da mulher 
caluniada, pe em fuga Satans.

Mais prximo de La lgende de Thophile est o texto brabants La lgende 
du chevalier vou au dmon et sauv par sainte Gertrude (1612) (Lenda do 
cavaleiro ao demnio e salvo por Santa Gertrude) (G. de Rbreviett) e La 
farse de Munyer (A farsa de Munyer).

Dessa forma, nessa espcie de imaginaria popular  assaz rica em textos 
semelhantes  a Virgem intercede em favor de homens orgulhosos, 
perdulrios e jogadores.

5.  A lenda de Cipriano

Santa Justina, virgem de Antioquia,  atormentada por Cipriano que se d 
 magia; mas Cipriano constata que o crucificado  maior do que todos os 
diabos converte-se e torna-se bispo. Voragine acentua dessa forma o 
poder esotrico do sinal da cruz. Caldern recolhe a lenda para seu 
Magicien predigieux (1637) (0 mgico prodigioso). O pacto foi tambm 
suprimido em So Cristvo ou Santa Teodora.

Em Saint Basile, vque (So Basilio, bispo), Voragine confunde o amor 
com o desejo de se elevar; Urdio, um jovem escravo, que se vende ao 
demnio para poder esposar a filha do seu patro, So Basilio conseguir 
recuperar a clula demonaca. Achille Jubinal, depois de Jehan de Saint- 
Quentin, narra em seus Contes, dits et fabliaux, vrias lendas 
semelhantes (Le dit du chevalier et de l'escuier (Os ditos do cavaleiro e 
do escudeiro), Le dit du pauvre chevalier (O dito do pobre cavaleiro), Le 
dit des II chevaliers (O dito dos II cavaleiros). Mira de Amescua: 
L'esclave du dmon (Escravo do demnio) associa D. Juan e Fausto. O 
eremita D. Gil sucumbe  tentao; d sua alma a Satans para poder 
abraar uma freira que no passa de um esqueleto. O pavor restitui seu 
pensamento a Deus e So Miguel triunfar sobre Satans.

Moreto: Tomber pour se relever (Cair para se reerguer), Caldern: Joseph 
des Femmes (Jos das Mulheres), Molina: Le damn pour manque de confiance 
(O maldito por falta de confiana), pensam ainda na doutrina luterana. 
Thomas Mann, no Doutor Fausto narra vrios contos semelhantes (captulo 
XIII).

6.  O ensinamento da lenda

Assim sendo, para atingir um fim ardentemente desejado um infeliz vende 
sua alma ao diabo, seja por intermdio de um judeu, seja por evocao 
direta graas a frmulas mgicas. O pacto  escrito com sangue, marca 
indelvel que o torna indissolvel por um perodo de sete anos. A vtima 
arrependida  arrancada a Satans por meio de uma interveno celeste. 
Esta luta  de quarenta dias  prazo da redeno. Substitui-se a Virgem 
pela santa da regio para que a autenticidade seja incontestvel. Tefilo 
busca a dignidade e as honrarias; os cavaleiros se ocupam de riquezas; 
Urdio pensa no amor; e Fausto, na juventude e no gnio.
A Igreja reformada serve-se da lenda de Fausto para combater o 
ensinamento do catolicismo. O inferno triunfa nas literaturas alem, 
inglesa, escandinava e holandesa.

7.  O pacto satnico e a crendice popular

Fortemente instrumentada, a crena popular  de que toda inteligncia 
superior  alimentada por um trato desonesto. Procura-se solapar o poder 
da Igreja catlica. O poder temporal do Papa Silvestre II  oriundo da 
colaborao do diabo que fez com que um pastor de Auvergne fosse elevado 
s mais altas dignidades:  o homem dos trs R por ter assumido postos 
em Reims, Ravenne e Roma. Abelardo, precursor do racionalismo moderno, 
tem a exigncia de Fausto; esse heri da crtica e da independncia  
derrotado por So Bernardo, conservador da ordem. Apolnio de Tiano, 
Sio, o Mgico e os papas desde Joo XIII at Paulo II perodo ativo da 
Reforma  so assim caluniados por espritos invejosos do seu poder. 
Alfred Neumann, ao escrever O diabo, sob o nome de Necker, servidor de 
Lus XI, mostra claramente a opinio do povo que pretende ver no xito de 
um homem surpreendente um poder oculto.

8.  O personagem histrico

Fausto, nascido nos ltimos anos do sculo XV, talvez em Kundling, perto 
de Bretten, teria morrido em 1543 ou, conforme o mdico Bgardi, em 1539. 
E. Faligan na sua Histoire de la lgende de Faust (Histria da lenda de 
Fausto) cita escritos histricos que provam a sua existncia; Fausto, em 
1507, era professor, em 1509, bacharel em teologia e recebido na 
Faculdade de Heidelberg. Esse indivduo preguioso, ladro e dado  
embriaguez, discpulo de Lutero, tem uma vida movimentada. Toma como 
cunhado o prprio Diabo e chama o seu co de Prestigiar. Prematuramente 
envelhecido pelos excessos, sua morte impressiona a imaginao popular. 
Sua vida estranha e sua morte cruel  talvez crapulosa  deram origem a 
uma lenda.

9.  Nascimento da lenda

Em 4 de setembro de 1587, Johan Spies publica em Francforte L'histoire du 
docteur Faust (Histria do doutor Fausto) (autor annimo). Depois da 
evoluo psicolgica dessa alma transviada, as suas aventuras 
extraordinrias so relegadas, desordenadamente, para o fim do livro.

A edio de Widmann em 1599, acentua o carter teolgico:  a 
contribuio protestante. L'histoire de Wagner (A histria de Wagner)  a 
repetio da de Fausto. Fredericus Scotus Tolet publica em 1593 uma vida 
de Fausto na qual ele viaja como sendo Cristvo Colombo. Marlowe escreve 
uma farsa trgica, violenta e sem igual, a Tragique histoire du docteur 
Faust (A trgica histria do doutor Fausto) (Londres, 1604).  uma obra 
profundamente humana na qual o autor conclui que o inferno est em ns 
mesmos. Com o teatro de fantoches  os puppenspiele  Fausto perde seu 
contedo ideolgico para tornar-se o impostor; o elemento trgico passa a 
residir apenas no destino do heri, ficando a parte cmica com Hanswurst 
ou Kasperle, Polichinelo alemo.

Essas numerosas representaes inspiram Dreher e Schtz e depois, 
Geisselbrecht.

10.  O drama de Goethe

Em 1773 Goethe inspira-se no teatro de fantoches. Devolve a essa lenda 
protestante sua nobreza primitiva: Fausto tornar-se-  um Abelardo 
alemo. Smbolo da vida humana, esse drama  o do saber, o
da paixo. Mas Fausto aspira a uma verdade superior: ser salvo apesar de 
seus erros. Mefistfeles  a anttese das boas qualidades do sbio. Esse 
desdobramento de personalidade  mais notvel em L'trange cas du docteur 
Jeckyll (O estranho caso do doutor Jeckyll) com Stevenson que identificou 
o vcio e a virtude. Essa cumplicidade demonaca reteve a ateno de 
Goethe, e o mal  fora consciente  seria o reativo do bem. Satans 
torna-se ento o servidor de Deus. O diabo  um companheiro que, 
provocando o homem, f- lo tambm agir. Alis, o prlogo de Fausto 
assemelha-se  conversao entre Deus e Satans (Job, I, 6; II, 3) que  
encontrada no ensaio de Abrao (Job, 17, 1812).

No ser esse o licor da imortalidade que foi apresentado pelo mdico dos 
Deuses ao Vichnu por ocasio de um dos seus avatares?

Alm do valor esotrico desse drama, eis que aparece a herona Margarida, 
uma das mais belas almas humanas. Mas nessa luta de amor pueril, sem 
escrpulos e sem remorsos, a lei da fatalidade esmaga a inocncia. Se 
Fausto no houvesse soobrado na desvairada noite de Walpurgis, teria 
representado o amor imortal.

Goethe, entre setenta e seis e oitenta e dois anos escreveu o segundo 
Fausto, soma de saber e conhecimento. Nesse poema metafsico, de 
simbolismo muitas vezes obscuro, Fausto  a cincia  casa-se com Helena, 
mulher perfeita, de beleza antiga e plstica, smbolo da iniciao. 
Euforion  a alma no ltimo grau da encarnao, libertada de suas 
correntes materiais.

Dois grandes filmes foram inspirados nesses temas equivalentes, um de 
Marcel Carn, Les visiteurs du soir (Os visitantes da noite) e o outro de 
Ren Clair, La Beaut du diable (A beleza do diabo).

11. Sucesso literria

Fausto enamorado, faz lembrar D. Juan, e Grabbe desenvolve essa 
comparao analisada por Micheline Sauvage: Le cas de Don Juan (O caso de 
D. Juan) (Le Seuil, 1953). Mas Fausto, romntico. como Chamisso e Lenau, 
suicida-se. Intelectual puro para Lessing,  um orgulhoso revoltado para 
Lenz, Muller, Klinger. O Fausto de Heine desapareceu; sua ao  muito 
confusa conforme Soden, Klingemann e Stolte.

Heri de todas as dvidas e de todos os conflitos humanos, o Fausto de 
Turguenief  alvo do amor culpvel. Mac Orlan o faz viver entre rufies e 
raparigas e uma prostituta endossa essa terrvel dvida (Margarida da 
noite). Em compensao, Mon Faust (Meu Fausto) de Paul Valry,  uma 
criatura que esgotou tudo o que a vida pode dar. Mefistfeles  desviado 
pelas transformaes do mundo moderno. Essa fresca sensualidade aparece 
na comdia satrica, Lust; depois de La demoiselle de Cristal (A jovem de 
Cristal), vem Le Solitaire (O solitrio) que  o drama da negao de 
nossa civilizao; sonho intelectual de M. Teste ou de Leonardo da Vinci, 
cada homem integrou-se de uma parcela diablica. As duas peas esto 
inacabadas; se Lust deixa supor o triunfo do amor, observamos o 
pensamento trgico j assinalado por Rhumbs (Rumbas), Varits 
(Variedades), Analectas (Analetos).

Thomas Mann escreveu a tragdia de um msico obcecado: O doutor Fausto. 
Livro de uma extraordinria densidade e anotaes perturbadoras, o Diabo 
aparece durante a Idade Mdia. Lembramo-nos de Paganini cuja virtude era 
classificada entre a dos personagens diablicos e que no pode ser 
enterrado religiosamente (as tribulaes de seu cadver duraram cinquenta 
e sete anos). Ferchault observa, porm, os msicos inspirados por esse 
tema. So eles, Schumann, Berlioz, Gounod, Liszt, Wagner e outros. 
Stravinsky orquestrou L'histoire du soldat (A histria do soldado) de 
Ramuz  na
qual um desertor vende a sua alma  num verdadeiro milagre de realizao 
instrumental sonora. Bellaigue se filia aos pintores: tude artistique et 
littraire sur Faust (1883) (Estudo artstico e literrio sobre Fausto). 
Depois de Ary Scheffer haver pintado Margaridas, as melodias de Berlioz 
transpareceram em Delacroix.

No poderamos deixar passar em silncio La merveilleuse histoire de 
Pierre Schlemihl (A maravilhosa histria de Pierre Schlemihl) na qual 
Chamisso aponta um pacto particular; um homem vende a sua sombra pela 
bolsa de Fortunato. A tentao  feita em dois estgios; o diabo, humilde 
como nos tempos medievais, compra apenas a sombra na esperana de 
recuperar a alma quando a desgraa se consumar. As sombras aparecem 
tambm na obra de Mac Orlan (Pre Barbanon) na qual a sombra de Encolpe 
instiga uma luta sorrateira; se bem que o pacto no aparea, a atmosfera 
diablica  a mesma.

12.  Concluso

Esta lenda de origem satnica nasceu com L'histoire de Thophile. Pelo 
poder da prece, o homem foge ao jugo do mal. O protestantismo consagra o 
triunfo do inferno. Fausto denuncia uma crise literria e moral,  um 
universo resumido. O drama de Fausto continua a ser, assim, o drama 
humano por excelncia.

CAPTULO II D. JUAN

Possuir pelo esprito ou possuir pelo corpo so os dois desejos 
insaciveis e eternos do homem. Fausto luta com os problemas do 
conhecimento. D. Juan procura enlaar a beleza e se inebria no furor 
sensual. Mas esse benfeitor inesgotvel de todas as mulheres, como  
denominado por A. Saurs, persegue um ideal inacessvel; luta com Deus e 
submete-se finalmente  sua lei comungando no Amor supremo.

D. Juan representa nossa tentao, nosso desejo repudiado; heri da fora 
de seduo, essa criatura audaciosa, nobre e cavalheiresca, cnica  
odiada mas secretamente admirada.  que sob os andrajos D. Juan permanece 
um grande Senhor; no  um espadachim e sua paixo, que poderia ter sido 
vil, o aureola.

Seu instinto de revolta faz com que entre em conflito com instituies 
existentes. D. Juan nasceu num clima quente e sensual, no estrondear das 
frutas maduras e odorantes, mas sob o controle da inquisio aos dogmas 
rigorosos que proscreviam a liberdade do amor:

L'oeuvre de la chair ne dsireras Qu'en mariage seulement.( 2)

Apesar de Bernard Shaw ser de opinio que D. Juan continua um crente 
fervoroso num inferno ltimo e de que se arrisca  excomunho,  que o 
inferno lhe parece to distante que o arrependimento pode ser diferido 
at o momento em que se tiver saciado de prazeres (Man and superman) o 
povo no pode admitir a excomunho desse homem excepcional. D. Juan 
reconcilia-se com Deus; e depois da lenda de D. Juan Tenrio  que morre 
excomungado  aparece D. Juan Maara.

1.  Os dois D. Juan
Depois de haver sido o smbolo da fora maligna anti-social; o 
individualista D. Juan Tenrio transforma-se na figura idealista de D. 
Juan Maara, vtima das realidades fsicas de nossa sociedade. Escravo do 
nosso mundo, ver seus erros perdoados por saber arrepender-se;  o 
smbolo do sofrimento e da luta.

Prosper Mrime mostrou em Les mes du Purgatoire (As almas do 
Purgatrio) que as duas lendas eram contadas da mesma forma; entretanto, 
Tenrio foi levado pela esttua de pedra enquanto que o Maara salvou-se. 
A Igreja manda um eplogo moralista e quanto mais perverso  o 
personagem, mais a converso ser retumbante. Bemard Shaw denomina- a 
moral monstica. Albert Camus admite que esse refgio em Deus  o 
confinamento de uma vida totalmente penetrada de absurdidade; o prazer 
termina aqui em ascese,

No decorrer de sua longa existncia D. Juan se purificou. Romntico, 
persegue a imagem de uma beleza feminina,  um amante mstico que vai do 
desencantamento ao desespero.  um Werther que, pelas suas preocupaes 
intelectuais, liga-se a Fausto.

2.  D. Juan e Fausto

D. Juan e Fausto so dois revoltados que se insurgem contra os princpios 
da sociedade e da Igreja. Esses orgulhosos  sero excomungados  porque 
ultrapassam os limites impostos por Deus. A aproximao desses dois 
peregrinos, de um absoluto inacessvel, foi materializada por Nicolas 
Vogt no seu poema Les ruines des- bords du Rhin (As runas das- margens 
do Reno). O paralelo foi admiravelmente tratado por Micheline Sauvage em 
Le cas Don Juan (Le Seuil, 1953), onde Fausto  a inteligncia de Don 
Juan, Don Juan o erotismo de Fausto; Albert Camus: Le mythe de Sisyphe 
(O mito de Sisifo)  de opinio que Fausto no sabia alegrar a sua alma 
enquanto que a vida cumulava D. Juan, que sabia organizar sua saciedade.

3.  Os personagens histricos

Essa criao imortal comea com D. Juan Tenrio. Tirso de Molina, que foi 
o primeiro a divulgar o tipo em, aproximadamente, 1627, deve ter 
conhecido obras literrias anteriores. Uma crnica de Sevilha fixa 
Tenrio matando o Comendador cuja filha havia raptado e a armadilha dos 
frades franciscanos; este teria sido mandado por uma esttua subitamente 
animada. Fez-se de Tenrio o filho do almirante Alonso Jofre Tenrio, 
contemporneo de Pedro, o Cruel.

Conhecemos melhor D. Miguel Maara. Nascido em Sevilha no dia 3 de maro 
de 1627, casou-se no dia 31 de agosto de 1648, aps uma juventude 
dissipada; ao falecer sua esposa, em 1662, ingressou na confraria la 
Hermandad de la Caridad; no cargo de irmo maior, faleceu em 1679 em 
odor de santidade; quiseram beatific- lo.

Barres: Du sang, de la volupt et de la mort (Do sangue, da volpia e da 
morte), Thophile Goutier (Voyage en Espagne, XIV), t'Serstevens (Le 
nouvel itinraire espagnol, Segep, 1951), nos descrevem a ltima morada 
desse personagem lendrio. A partir do quadro de Valds Leal, Montherlant 
(revista N. R. F. de janeiro de 1953) v na vida de D. Juan uma contnua 
blasfmia; o que contrariaria os propsitos do Padre jesuta Jean de 
Cardenas, amigo de D. Juan Maara. Lorenzi de Bradi estabeleceu a origem 
corsa desse erradio do amor, cujo tio habitava ainda em Calvi, em 1643; 
foi dessa forma que pelos Cinarca, Napoleo foi parente dos D. Miguel.

4.  Origem literria

Se Georges Gendarme de Bvotte escreveu um livro notvel, La Lgende de 
Don Juan (Hachette, 1906 e 1910), Lorenzi de Bradi (Don Juan (1930), 
pensa no sedutor com Zeus, esse deus devasso, incestuoso, adltero, 
Pluto o raptor de almas e de corpos ou Prometeu.

A silhueta do personagem no  nova: aparece no Amadis de Gaula (1492), 
nas comdias de Caldern e principalmente nas de Lope de Vega, 
aproximadamente em 1598.

Tirso de Molina (1627), porm, extrai desse contemporneo do Cid e de D. 
Quixote o mximo de fora. Seu heri vindicativo tem respostas breves; 
sua atitude  digna e de uma calma intrpida diante da esttua animada; 
essa grandeza o reabilita. O aspecto singelo desse drama d-lhe um sabor 
extraordinrio. No Le truand batifi (O truo beatificado), de 
Cervantes, Cristobal de Lugo morre em odor de santidade; com Mira de 
Amescua: L'esclave du dmon (O escravo do demnio), D. Gil vende sua alma 
ao diabo a fim de possuir uma freira: enlaa apenas um esqueleto e seu 
pavor o reconduz a Deus.

5.  Os outros temas do assunto

Esse drama religioso, no qual a doutrina de Lutero e da predestinao 
suscita a dvida, comporta tambm o tema do convite de um morto  mesa de 
um vivo. O assunto se encontra em peas escritas nos colgios de jesutas 
alemes nos sculos XVII e XVIII: um libertino, o conde Lencio, 
esbarrando com uma cabea de morto, convida- a para jantar; o misterioso 
hspede aceita o convite e leva o anfitrio para o inferno. Bvotte 
observa que a lenda teria nascido na Itlia, o que  confirmado por 
Simone Brouwer. As esttuas animadas so freqentemente usadas: 
Aristteles nota o assassnio de Mitis pela esttua da vitria (Potica, 
XI, 6), Crisstomo e Pausnias (Voyage en Grce, 6, XI) (Viagem  Grcia) 
observam que um invejoso  esmagado pela esttua erguida ao atleta 
Tegenes de Tasos; o escultor Pigmalio enamora-se de sua esttua que 
ser animada por Vnus.

Eckhardt (Corpus historiarum, Leipzig, 1723) menciona o texto de um 
cronista do sculo X referido por Gauthier de Coinsi em sua Chronique 
rime des miracles de la Vierge (Crnica animada dos milagres da Virgem): 
Du Clerc qui mis l'anel au doi Nostre Dame. Notemos ainda Cicognini com 
La statue de l'honneur (A esttua do homem). Shakespeare e o Conte 
d'hiver (Conto de inverno) e a Vnus d'Ille de Prosper Mrime.

6.  De Tirso de Molina a Molire

Depois da obra humana de Tirso de Molina, a pea espanhola  traduzida 
conforme o gosto italiano, por Cicognini, Giliberto; cenas burlescas e 
at vulgares foram acrescentadas por Biancolelli. Dorimon interpreta Le 
festin de Pierre, em Lio (1658), Villiers no palcio de Borgonha, em 
1659. Ao ttulo Le convi de Pierre, preferiu-se algumas vezes Le festin 
de Pierre, sendo Pedro o prenome do Comendador que deu origem ao contra-
senso atual. Molire imagina, no Palais Royal, em 15 de fevereiro de 
1665, essa notvel pea que s ser impressa em 1682. Seu atesmo revolta 
os bons costumes e a pea  condenada. Com dois novos personagens, 
Sganarelle  mordomo jovial e de bom senso  e dona Elvira  vtima 
inocente  D. Juan  um ctico de idias engenhosas. Calculista, 
perversa, hipcrita e facciosa, essa pea  na realidade uma pintura dos 
costumes da poca.

7.  Superabundncia literria

Cada autor retomaria esse tema, a fim de nele se introduzir, em folhetos 
impressos. Depois de Rosimond (1669), La Fontaine trata do personagem ao 
escrever Joconde ou l'infidlit des femmes (Joconda ou a infidelidade 
das mulheres). D. Juan passa para o teatro de fantoches, nas feiras de 
Saint- Laurent e Saint- Germain e o Almanach forain de 1777, organiza uma 
lista.

Cokain introduz D. Juan na Inglaterra e Shadwell transforma-o em um 
monstro: La libertine. (1676) (A libertina). Byron escreve um longo poema 
inacabado no qual o heri se deixa conduzir pelo destino. Em Clarisse 
Harlowe, de Richardson (1751), Lovelace  uma criatura complicada que tem 
o gnio do mal. Choderlos de Laclos aproveita essa mesma segurana 
diablica no prazer da corrupo: Les liaisons dangereuses (Ligaes 
perigosas (1782), mas nessa luz cruel onde todos os recursos da astcia 
so orquestrados, Valmont aparece mais perverso do que D. Juan.

O abade italiano Lorenzo da Ponte introduz episdios da sua vida em Don 
Giovanni; Mozart aproveita esse texto, enquanto que Balzac cria L'elixir 
de longue vie (O elixir da longa vida).

Do personagem humano de Puchkin (1830), Musset faz apenas um ente 
quimrico (Les marrons du feu, 1829, Namouna, 1832; Une matine de Don 
Juan). Em 1833, Llia, de George Sand, ataca D. Juan que  por ela 
reabilitado em 1839. Mrime (Les mes du Purgatoire, (1834) (As almas do 
Purgatrio), Blaze (Le souper chez de commander (1834), inspiram-se em 
Maara, enquanto que La chute d'un ange (A queda de um anjo), de 
Alexandre Dumas,  um drama desconcertante. D. Juan continua demonaco em 
Albertus, (1831), Comdie de la mort, (1838) de Th. Gautier.

Se a maioria dos dramas  pueril, Baudelaire compe um poema 
surpreendente, Don Juan aux enfers (D. Juan nos infernos), que evoca 
talvez Delacroix (1846, Les fleurs du mal (As flores do mal). Depois 
dessa sntese vigorosa, D. Juan  novamente desiludido com Lenau (1851), 
Tolsti (1860). Flaubert lembrou-se dele numa pea inacabada (Une nuit de 
Don Juan), enquanto que Barbey d'Aurevilly, f- lo contar seu mais belo 
amor nos Diaboliques (Diablicos); Henri Bataille tambm evocou esse 
personagem na velhice (L'homme  la rose (O homem da rosa). Richepin 
obriga o sedutor entediado a amar apenas mulheres bonitas: Mille et 
quatre, inconnue (Mil e quatro, desconhecida). H. de Rgnier, Ed. Rostand 
trazem poucas inovaes. Bemard Shaw produz uma obra de f sobre esse 
motivo: Man and superman (1901- 1903) (Homem e super-homem); Miguel 
Maara de O. V. de Milosz  humano e comovente; foi escrito depois de Les 
sept solitudes (As sete solitudes) Scenes pour Don Juan et l'amoureuse 
initiation (Cenas para D. Juan e a amorosa iniciao). L'homme de cendres 
(1949) (0 homem feito de cinza) de Andr Obey  tambm Le fruit de Don 
Juan (1934) (O fruto de D. Juan) e do Trompeur de Sville (1937) (O 
impostor de Sevilha); mas aps esse homem da negao, eis o assassnio 
do amor por Delteil (Grasset, 1930);  um fraco vencido pela mulher. 
Depois deste estilo imperioso e colorido, Claude- Andr Puget prope-se 
dois fins em Echec  Don Juan (1941 e 1953), (Malogro de D. Juan), obra 
brilhante e cavalheiresca. Para t'Serstevens, La lgende de Don Juan 
(1924 e 1946) (A lenda de D. Juan), ele  o judeu errante do amor. Esta 
vibrao da carne encerra-se com xtase, enquanto que para Fernand 
Fleuret: Les derniers plaisirs, (1924) (Os ltimos prazeres), Maara 
morre como um libertino.

8.  Os representantes de D. Juan

Alm dos personagens histricos de Tenrio  e Maara, muitos outros 
sedutores tornaram-se representantes desse heri. Ocorre-nos 
imediatamente a lembrana de Alexandre com o seu harm de
trezentas e sessenta e cinco mulheres, renovado todos os anos ou a de 
Jlio Csar, o sedutor inescrupuloso. Mencionemos ainda Henrique II de 
Montmorency, Nero, Francisco I, Lus XIV, Henrique IV (Le Vert Galant). 
Temos ainda Lauzun, o duque de Richelieu e a vida galante da Regncia. 
Depois de Lzaro vm as vidas tumultuosas de Santo Incio de Loiola, de 
Caldern ou do terrvel espadachim Lope de Vega. Sade, por sua 
obscenidade doentia, sua perverso sexual dificilmente se assemelha a 
esse voluptuoso que no pagava as mulheres como o fazia Casanova; D. Juan 
no teria admitido as astcias de Charpillon que se assemelham s da 
Conchita imaginadas por Louys: La femme et le pantin (A mulher e o 
ttere). Nicolas Rtif La Bretonne tambm se assemelha mais a Casanova do 
que a D. Juan.

9.  Concluso

D. Juan encarna a paixo humana, pertence a todos os pases, a todas as 
pocas. Est na base de nossa literatura:  o Ren de Chateaubriand, o 
Steerforth de David Copperfield, L'egoiste (O egosta) de Meredith, o 
Woodstock de W. Scott; aparece ainda na obra de Montherlant, Stendhal, 
Maupassant. Esse sedento de ideais integra-se na concepo de cada autor; 
 uma criao viva.

 satisfao fsica quer acrescentar a do esprito. Esse carrasco de 
coraes, corts e cavalheiresco, buscando a posse suprema, o amor 
absoluto, tende  santidade. Mas no deixou de ser essa criatura 
inconstante, cujos desejos insaciveis e inesgotvel curiosidade, 
permitiram-lhe mil e trs aventuras, verda 59 deiras conquistas e no 
simples mercancias. Iluminado, peregrino do xtase, judeu errante da 
volpia, aventureiro que sonda coraes e entranhas, traz no seu vcio 
uma elegncia nativa para transformar-se nesse frade arrependido.

Ao seu lado a esttua  altiva e marcial; o mordomo conselheiro, tmido, 
hesitante entre seus escrpulos e seu interesse; Dona Enviar  ou Dona 
Ana   pura.

O drama de D. Juan com seu esprito revoltado denuncia uma crise 
literria e religiosa. Mito de riqueza incomparvel,  um universo com a 
condio do homem, sua dualidade, seu drama da carne e do esprito. Ainda 
por muito tempo nos encantar.

CAPTULO III AS CANES DE GESTA

As canes de gesta nasceram na excitao religiosa e guerreira; os 
frades e os prestidigitadores desenvolveram seu suporte histrico, a 
fico embrionria num objetivo preciso. No so obras coletivas; gentes 
de ofcio fixaram uma obra maduramente pensada. Bdier demonstrou a 
influncia exercida pela vida dos santos, e a marcha dessas epopias nas 
vidas dos santurios; pois que essas obras morais deviam reter e 
explorar o peregrino.

1.  Histrico das teorias sobre a origem

1. Em 1830, para Fauriel, Wolf, Herder e Edgar Quinet, a lenda vem de um 
canto popular contemporneo ao evento histrico. A poesia nasceu 
espontaneamente; esses contos so Iladas em potncia

2. Os irmos Grimm germanizaram as canes de gesta. Essa poesia 
popular exprime a alma da coletividade; no  escrita por um poeta, mas 
pelo povo. Os escribas apenas a coletaram. J. J. Ampre  da mesma 
opinio;

3. Em 1835, Leroux de Lincy denomina de Cantilenas os velhos cantos 
populares. Essa teoria das origens faz parte do ensino com as Histoires 
de la littrature franaise de Demogeot (1851) e de Grusez (1852);

4. Gaston Paris admite essa origem mas controla os cantos que seriam de 
origem merovngia e no tudesca;

5. Em 1884, Pio Rajna mostra que a cano de gesta  o trmino da epopia 
merovngia herdeira da epopia franca; foi adaptada somente para a 
aristocracia germnica. (Carlos Magno fala alemo). Rajna arruina a 
teoria das cantilenas e mostra que a epopia era composta de longos 
poemas estruturais. Mayer conserva a tradio oral, Gaston Paris, a noo 
do canto lrico- pico;

6. Bdier observa a importncia dos santurios situados nas estradas das 
grandes peregrinaes que conduzem para So Tiago de Compostela. Assim 
sendo, a igreja  o bero das canes de gesta. que nada mais so do que 
a histria potica de uma estrada. Bdier traou a estrada dos 
santurios. A chanson de Fierabras foi composta pela abadia de Saint- 
Denis para que melhor se venerasse o Cravo da Cruz e a Coroa de Espinhos 
do Cristo.

2.  Situao dos ciclos

Indicamos sumariamente a composio de trs ciclos principais: A) Gesta 
do rei Carlos Magno   o ciclo mais nobre; narra guerras santas 
efetuadas pelo Imperador. A ttulo de indicao citaremos como a mais 
antiga cano de gesta a Chanson de Roland.

Observemos a descrio das guerras santas: Da Itlia (Canes 
d'Aspremont, d'Otinel, as Canes Enfances d'Ogler, de Balan, de Jean de 
Lanson, de Bete et Milon); da Palestina (Cano de Miran, Plerinage  
Jerusalm, o Chevalier au Cygne, Chanson d'Antioche); da Bretanha a fim 
de libertar as sete igrejas (Chanson d'Aiquin); contra os Saxnios 
(Chanson de Saisnes); da Espanha (Chanson de l'Entre en Espagne, de La 
prise de Pampelune, de Pierabras, e d'Agolant, de Roland, de Galien, 
d'Anseis).

B) A gesta de Garin de Monglane  So as pesquisas de Luis, filho de 
Carlos Magno, apoiado pelo cavaleiro Guilherme. No tratando deste ciclo, 
daremos alguns dados.

1. O coroamento de Lus  Poema do sculo XII que marca a chegada de Luis 
em Aix- la- Chapelle. Guilherme Fierebrace  o verdadeiro heri  combate 
at Corsolt, o gigante. Cogitou-se historicamente no conde de Toulouse, 
Guilherme, que foi defensor das marchas meridionais contra os sarracenos. 
Ao retirar-se para o mosteiro em 806, tornou-se So Guilherme do Deserto; 
nossos dados limitam-se a esta descrio. Guilherme morreu antes do 
coroamento de Lus.

2. O carreto de Nimes  Por ocasio da distribuio de mritos e feudos, 
Guilherme foi esquecido pelo rei. Reivindica ento o direito de 
conquistar a Espanha e o reinado de Nimes. Penetra em Nimes disfarado 
num vendedor de barris de sal onde esto escondidos, na realidade, seus 
soldados. (O que nos faz lembrar o cavalo de pau da Ilada ou As mil e 
uma noites).

Guillaume au court nez (Guilherme de nariz curto)  um heri popular; a 
narrao  truculenta, pitoresca e cmica. Notemos o episdio da morte do 
cavaleiro Renouart no qual o autor pensa no ciclo arturiano ao falar da 
fada Morgana e do rei Artur. Guilherme est ainda presente na Prise 
d'Orange (Tomada de Orange), Aliscans.
Os ascendentes de Guilherme esto presentes com: 1. Aymeri de Narbonne  
Cinco mil versos decassilbicos atribudos a Bertrand de Bar- sur- Aube 
(Princpio do sculo XIII), divididos em cinco manuscritos annimos. 
Aymeri, depois de haver conquistado Narbonne partiu para a Itlia a fim 
de desposar Hermengarda, irm do rei dos Lombardos. Deve reconquistar dos 
sarracenos aquilo que lhe pertencia.

Com o Dpartement des enfants d'Aymeri vemos a luta de seus sete filhos 
contra os sarracenos. Aymeri morre combatendo os Centauros (os 
Sagitrios); seus quatro mil versos tm o titulo La mort d'Aymeri de 
Narbonne.

Victor Hugo lembrou-se dessa lenda em Aymerillot (A lenda dos sculos). 
2. Girardo de Viena  Durante sete anos Girardo  sitiado em Viena por 
Carlos Magno. Oliver combate ao lado de Girardo. Ora, Rolando apaixona-se 
por Aude, irm de Oliver. A fim de terminar a guerra, Rolando e Oliver 
empenham-se num combate implacvel; um anjo aparta os combatentes e 
Rolando esposa Aude.

Baseado nesse tema, Victor Hugo escreve Le mariage de Roland (O casamento 
de Rolando), La Lgende des sicles (A lenda dos sculos).

Mas os descendentes de Guilherme deram origem a: Les enfances de Vivien 
(As infncias de Vivien), Foucon de Candis, La batalhe Loquifer (A 
batalha Loquifer), Rnier enquanto que seus irmos esto presentes no 
Bovon de Commarcis, Le sige de Barbastre (O sitio de Barbastre), Guibert 
d'Andrenas ou La prise de Cordoue (A tomada de Crdoba). C) A gesta de 
Doon de Mogncia   a narrao da revolta dos cavaleiros rebeldes de 
Carlos Magno. Estudaremos melhor na Chevalerie d'Ogier os Quatre fils 
Aymon (Os quatro filhos Aymon), lenda justamente clebre e que  
prosseguida por Maugis d'Aigremont e La mort de Maugis (A morte de 
Maugis).

O orgulho, a loucura, o exagero formam o fundo dessas canes onde 
rancores imperdoveis nasceram (Chanson d'Aubri le Bourguignon, de Basin, 
de Girard de Roussillon, de Gormond). Mas, s vezes, os bares j no 
lutam contra Carlos Magno e sim entre si (Raoul de Cambrai, Les 
Lorrains).

Observemos que a histria de Gormond e Isambard foi composta pelo, abade 
Hariulf, em 1088, conforme a crnica de Saint- Riquier.  pois ainda um 
santurio que guardou a tradio doa invasores escandinavos que ameaaram 
a Frana em 879. E exato que um dos Wikings se chamava Gormond, que seus 
bandos devastaram Ponthieu em 2 de fevereiro de 881, e que no dia 3 de 
agosto de 881, Luis III os desalojou. As crnicas anglo- saxnicas 
mencionam um Gormond estabelecido em Circester em 879 e um clrigo 
cometeu o contra-senso de confundir os dois Gormond.

D) Finalmente os empresrios dos espetculos desejaram satisfazer os 
pblicos mais vulgares. As canes de gesta se transformaram em 
melodramas. Surgiu o tema da inocncia perseguida -( Elie de Saint- 
Gilles, Doon de La Roche...), o das damas oprimidas (Berthe aux grands 
plods, Les enfances Doon, Orson de Beauvais). So peas moralistas onde 
se assiste ao castigo do crime.

I.  Cano de Rolando

1.  Tema da cano Carlos Magno deve negociar com o rei muulmano de 
Saragoa que pede paz. Ganelon, o traidor, permite que Marsile cerque a 
retaguarda comandada por Rolando. Quando este se
decide a pedir socorro a seu tio, todos os bravos, inclusive Olivier e o 
arcebispo Turpin, morrem. Carlos Magno aniquila os sarracenos e em Aix- 
la- Chapelle. Ganelon  esquartejado.

2.  Tema histrico

Einhard escreve em aproximadamente 800 (Vita Karoli, IX) que o emir da 
Saragoa solicitou o auxlio de Carlos contra os prncipes muulmanos 
(777 em Paderborn) No dia 19 de abril de 778 Carlos Magno atravessa os 
Pireneus, toma Pampelune e malogra-se em Saragoa. No dia 15 de agosto de 
778 sua retaguarda  surpreendida pelos bascos no desfiladeiro de 
Roscenvales. Carlos no pode castigar os montanheses.

Desta forma, para os bascos, a imaginao popular teria substitudo os 
sarracenos, inimigos arraigados dos cristos.

Conforme a verso rabe de Ibn- al- Athir (sculo XIII), os sarracenos 
aliciados junto aos francos, teriam auxiliado os bascos.

Gaston Paris adere a esta opinio e diz que Einhard registrou um fato 
inexato para poupar o amor- prprio dos francos.

3.  Arquivos histricos

Estes acontecimentos so ainda anotados nos Anais de Angilbert, em 778, 
na crnica do astrnomo Limousin Vita Kludovici.

Eis a crnica do frade de Silos (aproximadamente 1110), ato da fundao 
da abadia de Saint- Pede- Gneres em Bearn (1096); histria eclesistica 
de Fleury (1109); epstola III de Raoul le Tourtier (antes de 1114); Les 
exploits de Tancrde (As proezas de Tancredo), de Raoul de Caen (1112- 
1118). Uma cruz adorna a gola de Cize antes de 1106 e  mencionada numa 
Carta Episcopal de Baiona, em 980; os arquivos de Pampelune (1127), falam 
de uma capela erguida por Carlos Magno nesse local de carnificina.

4.  Os personagens histricos

Rolando era verossimilmente um conde de la Marche da Bretanha. Carlos, 
que na realidade tem apenas trinta e sete anos, torna-se o imperador da 
Barba florida. A lenda deforma os fatos e, para melhor expor a bravura 
de Rolando, quatrocentos mil sarracenos combatem vinte mil francos.

Costuma-se relacionar tambm esses acontecimentos histricos a Guilherme, 
duque de Septimnio, de Toulouse e de Aquitnia, que, em 793 foi 
derrotado pelos sarracenos, em Villedaigne. Em 806, Guilherme retirou-se 
para o mosteiro de Gellone onde morreu em odor de santidade (28 de maio 
de 812). O mosteiro fez sua apologia e assim foi inspirada a lenda.

5.  Os manuscritos

A verso assonante do manuscrito de Oxford (quatro mil versos em 
decasslabos do incio do sculo XII)  a mais conhecida. Bdier 
localiza- a entre 1080 e 1134. Para Gregrio, essa verso prender-se- ia 
ao episdio de Baligant. A de decasslabos assonantes conservada na 
biblioteca de So Marcos, em Veneza,
est muito prxima do texto de Oxford (manuscrito IV, fundo francs). Nas 
verses rimadas, notamos o manuscrito de Chteauroux; outro grupo 
compreende textos semelhantes (manuscrito VII, So Marcos, em Veneza; 
Biblioteca Nacional de Lio, Cambridge.

O Rolando alemo foi escrito por Konrad (Ruolandes liet) conforme o texto 
de Oxford; o mesmo se d com a verso norueguesa redigida em, 
aproximadamente, 1240, por ordem do rei da Noruega Haakon V (Captulo 
VIII da Karlamagnussaga). Deve-se ainda registrar uma verso galesa 
(sculo XIV), dos poemas ingleses, neerlandeses, latinos (Carmen de 
prodicione Guenonis), ou os dois poemas de Apt em lngua provenal 
(estudados por Mario Roques).

6.  O autor

O ltimo verso do poema de Oxford: Ci falt la geste que Turoldus dclinet 
fez com que se procurasse o sentido de dclinet que tanto pode 
significar procurar, refundir ou recitar. Faral (Les jongleurs en France, 
1910) mostrou essa aristocracia das clrigos menestris. Turold seria 
ento um pelotiqueiro considerado autor, provavelmente de origem 
normanda. Na tapearia de Bayeux aparece um Turold que se julgou ser um 
padre, beneditino de Fcamp, filho do antigo preceptor de Guilherme, o 
Conquistador (Gnin). Tavernier pensa no bispo de Bayeux, nascido entre 
1055 e 1060.

Para Boissonnade (1923), esse clrigo pelotiqueiro, de carter 
independente e f profunda, oriundo de Avranchin, teria sido o 
companheiro de Roger de Seis ou Sai; seus nomes so encontrados numa 
Carta do captulo Notre- Dame de Tudela.

7.  Origem

Sendo a teoria das cantilenas destruda por Rajna, a crtica de Bdier 
parece tornar-se definitiva. A importncia dos santurios situados entre 
Blaye e Roscenvales  la Via Tolosana   confirmada na lenda que envolve 
a vida secular de Guilherme. Os louvores religiosos, conservados nos 
anais de 1124 com os atos de doao, certamente excitaram ainda mais a 
imaginao do poeta de profisso do que a magra informao contida nos 
anais carolngios.

 por essa razo que Mireaux, baseando-se no Guide des Plerins (1140) 
investiga se o olifante exposto em Saint-seurin de Bordus existia antes 
da cano ou se foi originado por ela. Boissonnade liga o evento da nossa 
cano s empreitadas das cruzadas francesas na Espanha nos sculos XI e 
XII.

8.  Valor da lenda

As canes evocam personagens histricos. Para Pauphilet (Romania, LIX, 
1933), o principal personagem continua a ser Carlos Magno. Mas para 
Mireaux, a obra de Turold visaria a glria e os desgnios de Henrique 
Plantageneta tornando sua a concepo cisterciense da cruzada.

Todavia, as memrias evocadas pelo autor so as que mais nos interessam. 
Mrio Roques (Romania, n. 263, julho de 1940), mostrou a preocupao do 
poeta perante as verdades materiais e psicolgicas.  enfim uma obra de 
criao potica na qual os temas tornaram-se imortais.

Essa lenda simboliza tambm as guerras efetuadas por Carlos Martel e 
principalmente as de Carlos Magno a fim de realizar a unificao do 
catolicismo; para agradec- lo por este fato, o Papa Leo III coroou 
Carlos Magno imperador, no dia de Natal no ano 800.

9.  Sucesso literria

Se A. Fabre (campeo 1941) mostrou que La chanson de Roland era a origem 
e a base da Chanson de Sainte- Foy, Le dit de la bande d'Igor  o tema 
russo em homenagem aos prncipes que se bateram pelos cristos contra os 
exrcitos pagos.

O assunto inspira o romance de Gabien, as Conquestes de Charlemagne de 
David Aubert. Mas depois de Spagna, o Morgante de Pulci (1485) dirige 
Rolando para o burlesco. O ideal mundano aparece mais desenvolvido no 
Roland amoureux. Mas Boiardo falece (1494) deixando sua obra inacabada. 
Ariosto v apenas em Rolando um amante enganado, mas seu Roland furieux 
(1516- 1532) influencia Mairet; Quinault (1685) compe com a msica de 
Lully. Vigny, ao escrever Le cor (1825) pensa na narrao de Turpin; 
Monin (1832) atrai a ateno dos letrados com seu Roman de Roncevaux, 
enquanto Francisque Michel estudava o manuscrito de Oxford.

II.  Os quatro filhos de Ayimon (Gesta de Doon de Mogncia)

1.  O tema

Carlos Magno armou cavaleiro aos quatro filhos de Aymon de Dordone: 
Aalard, Renaud, Guichard e Richard. Mas Renaud, devido a uma srie de 
derrotas, matou Bertolai, sobrinho de Carlos Magno. Um antigo rancor 
gerou entre o imperador e as fileiras de Renaud; Carlos Magno, para se. 
vingar da afronta, perseguiu durante anos os quatro irmos que provocavam 
a admirao de seus inimigos. Ei- los ao lado do rei Yon lutando contra 
os sarracenos, desde Ardenas at Bordus. Com o auxlio de um primo, 
Maugis, o mgico, capturaram Carlos Magno para libert- lo imediatamente. 
Libertaro seu maravilhoso cavalo Bayard e Renaud parte para combater na 
terra santa; essa vida de orgulho e violncia termina com a penitncia e 
a graa.

2.  Textos anlogos

Os problemas de honra e de conscincia que se impem a esses revoltados 
se encontram em La chevalerie Ogier no qual o filho de Ogier, o 
Dinamarqus, foi morto pelo filho de Carlos Magno; Ogier quer se vingar; 
se arrepender e tornar-se-  frade. Em Raoul de Cambraf, Raoul, 
deserdado pelo pai, devasta Vermandois. Seu implacvel adversrio Ybert 
de Ribemont, reconhecendo seus erros, funda, no local onde esto os sete 
castelos  monumentos do orgulho  sete mosteiros  testemunhos de 
penitncia.

3.  Manuscritos

O manuscrito do sculo XIII, arquivado na Biblioteca Nacional de Paris 
(n. 24.387, verso de La Vailire), deu origem a duas edies 
(Michelant, Tbingen, .1862; F, Castets, Montpellier, 1909). Treze outros 
manuscritos completaram esse texto chamado La Vailire (manuscritos de 
Montpellier, de Veneza, estudados por Pio Rajna, de Cambridge, ns. 766 B. 
N.). Um poema neerlands (segunda metade do sculo XIII), retoma a trama 
do manuscrito La Vallire.

4.  Estudos

Paulin Paris localiza a ao primitiva nas Ardenas. Bdier acentua que a 
lenda no  mencionada no
Catalogue de 1150, mas que  bastante conhecida no princpio do sculo 
XIII. Longnon estabelece em 1879 um paralelo histrico entre Yon de 
Gasconha e o rei de Aquitnia Eudon que guerreou, no contra Carlos Magno 
mas contra Carlos Martel. (Revue des questions historiques). Rajna 
(1884). Lon Jordan (1908), Castets (1909) considerando a mesma tese, mas 
Castets, sem demonstr- lo, identifica os quatro filhos Aymon aos quatro 
filhos de Clotrio: Clodoveu, Meroveu, Gondovaldo e Childeberto.

Gaston Paris atribui esse poema de dezoito mil versos a Huon de. 
Villeneuve, enquanto que Bdier estabelece um paralelo com a vida de 
Santo Agilolfo, que conteria todo o elemento histrico.

5.  Concluso

Essa lenda de situaes dramticas, ternas, trgicas ou burlescas  a 
epopia de vassalos rebeldes que lutam contra seu senhor. Com um fundo 
maravilhoso e cmico, cenas pueris e joviais. Les quatre fils Aymon 
caracterizam essa literatura feudal acentuada por uma espiritualidade 
crist e pag. A verdade histrica desaparece perante a verdade 
psicolgica. Mais do que na Cano de Rolando, temos o retrato da 
sociedade dos Capetos na qual os vassalos so freqentemente insolentes e 
intrpidos; guardam contudo um certo senso da honra e essa perseguio 
implacvel dos quatro irmos, cercada de maravilhoso, continua a ser uma 
obra das mais atraentes,

III.  O Cid

O personagem do Cid pertence  Espanha. Mas Corneille, prosseguindo com a 
pea de Guillen de Castro, imortaliza o heri. Essa lenda cavaleiresca 
descreve a vida rude e trabalhosa de um hbil guerreiro;  uma poesia de 
autenticidade na qual o sobrenatural, o misticismo e o fanatismo 
desaparecem.

1.  O personagem histrico

A Gesta Roderici Campidocti registra o nascimento do Cid em, 
aproximadamente, 1050; a Crnica del Cid, em 1026. Deve ter nascido em 
Bivar (a 8 quilmetros de Burgos), de Diego. Laynez, descendente de Layn 
Calvo, juiz do condado de Castilha.

Conforme outras tradies, Rodrigo  um bastardo e tem trs irmos mais 
velhos. Guillen de Castro faz dele um filho natural, Corneille, um filho 
nico.

Guerreia sob o reinado de Sancho II e depois sob o de Afonso VI que o 
exilou em 1081. Rodriguez Diaz bate-se ento para outros reis. Requestam-
se os servios do Campeador (O batalhador).

Ajudando o rei muulmano de Saragoa, os soldados lhe deram o nome de 
Cid, Mio Cid oriundo do rabe Sidi, senhor. Cumulado de riquezas e honras 
apoderou-se de Valena (1094) e l viveu at 1099 como grande senhor. 
Depois de sua morte, sua mulher, Ximena, neta de Afonso V. teve que 
abandonar Valena (1102).

A imaginao do povo acrescentou logo uma infinidade de pormenores 
extraordinrios. Esse vassalo injustamente exilado permanece um motivo 
ora respeitvel, ora revoltado; chefe de um bando ambicioso, pouco 
escrupuloso (conforme Dozy), torna-se um cavalheiro corts e galante. 
So-lhe atribudas intenes que so de outros tempos e de outros 
personagens. Mas esse homem rude, independente, leal, representa bem a 
Espanha crist; provocou a admirao.

2.  Os documentos

O Museu Real de Armas de Madri conserva uma das espadas do Cid (Tizona); 
a catedral de Sala manca retm o ato de 1098 pelo qual o Cid dava todos 
os seus bens  catedral de Valena; bem como os de Ximena (1101). Burgos 
tem em seu poder o contrato de casamento entre Cid e Ximena e os. dois 
cofres que o Cid teria entregue aos judeus. Os restos mortais do heri e 
de sua mulher descansam em San Pedro de Cardena. Em 1272, Afonso X mandou 
erguer, em sua homenagem, um atade de pedra.

3.  Fontes literrias

a) Historia Roderici Didaci Campi docti, crnica latina (antes de 1238), 
descoberta em 1742 pelo P. Risco, traduzida por Saint- Albin (Paris, 
1866).

S nos restam trinta e duas estrofes desse poema; b) Crnica rimada, 
descoberta em 1844 por Enjemio de Ochoa, publicada por Francisque Michel 
e Ferdinand Wolf  Traduo de Damas- Hinard em 1858. E a juventude do 
Cid feudal. A narrao inicia-se com a querela entre o Conde de Gormaz e 
Digo Lainez;

c) Le Romancero  a obra mais considervel. Foi impressa em Saragoa em 
1550; d) A crnica do Cid, quarto livro da Crnica general, teria sido 
composta pelo prprio Afonso X e refundida no sculo XV; e) La crnica 
del famoso Caballero Cid Ruy Diaz Campeador, em prosa, publicada em 1512 
por Juan de Veloredo, em 1845 por Huberto, em Marburgo e em 1853, em 
Stuttgart;

f) O poema do Cid (Gesta del mio Cid), publicado em 1779 por Sanchez, 
reeditado em 1858 por Damas- Hinard e depois por Saint- Albin. Talvez 
escrito por um prestidigitador de Madenaceli em, aproximadamente, 1140; 
esse admirvel poema encena um Cid mais apaixonado pelas guerras do que 
pelo amor. A influncia da Cano de Rolando nela  indiscutvel, mas os 
episdios sobrenaturais so apenas quatro, sendo um a visita, do Anjo 
Gabriel e o outro a de So Lzaro.

Essa grande lenda pica espanhola no precisa pois do maravilhoso; g) 
Documentos rabes. Dozy (1881) encontrou o manuscrito rabe de Ibn Bassam 
(Dzakhira, terceiro volume, primeira parte), escrito em Sevilha em 1109 
dez anos depois da morte do Cid lbn- al- Cardebus et Ibn- al- Abar 
falaram tambm do Cid.

4.  Sucesso literria

O amor Ximena- Cid no  tratado. Essa inveno arbitrria nasceu nos 
romanceros, os quais dizem que Ximena amou Rodrigo depois da morte de seu 
pai. Francisco Santos no Cid ressuscitado faz com que o Cid ressuscite 
bastante descontente com as fbulas que lhe so atribudas.

a) Guillen de Castro  No sculo XVII, este autor forneceu o conflito 
dramtico da morte do conde. Las mocedades del Cid (Juventude do Cid), 
composto em 1618, foi editado em 1621;  um drama frtil em espetculos 
nos quais o amor luta com o dever durante trs anos. A segunda parte de 
Las mocedades narra as proezas do Cid e a ao s  iniciada vrios anos 
depois do casamento do Cid com Ximena.

Esta pea edificante exalta o esprito da caridade;  uma arma contra a 
Reforma;

b) Corneille  Corneille retoma esse texto (dezembro de 1636) inspirando-
se tambm em dois antigos romances espanhis. A lei imperiosa da unidade 
de tempo aboliu esse perodo de trs anos; Corneille, reagindo contra a 
apresentao dos mistrios, suprime as cenas religiosas mas exalta o 
ideal de cavalaria.  criticado pelo casamento dessa moa com o assassino 
de seu pai, mas na Espanha, o rei dispunha, como queria, da mo de uma 
rf.

La querelle du Cid, erguida por Richelieu, tem motivos polticos 
(apologias do duelo e de um heri espanhol justamente quando os ditos de 
1634 probem esses combates e que a Frana est em guerra com Madri). E 
nada mais do que uma rivalidade literria, o orgulho de Corneille feriu a 
suscetibilidade de seus rivais;

c) Diamante  La Harpe e Voltaire pretenderam sem razo que o Cid de 
Diamante era anterior ao de Castro. Le vengeur de son pre data de 1659 e 
 uma traduo de Corneille;

d) Les tragdies  Desfontaines (Le mariage du Cid, 1635), Chevreu (La 
vraie suite du Cid), Timothe Chillac (La mort du Cid ou L'ombre du comte 
de Grmaz, 1639), Pierre Lebrun (Le Cid d'Andalousie, 1825), de Casimir 
Delavigne (La fille du Cid, 1840) no trouxeram nenhum elemento novo.

Abel Hugo traduziu o Romancero (1822) e Victor Hugo lembra-se de Rodrigo 
em La bataille perdue (Les Orientales), Bivar, Le Cid exil, Le Romancero 
du Cid (La lgende des sicles);

Em 1882, Zorilla compe uma abundante parfrase do romancero (La lgende 
du Cid). Massenet escreve sua msica segundo o livreto de Gallet, 
d'Ennery e Blau. Leconte de Lisle inspira-se em Rodrigo nos seus Pomes 
barbares (1862), bem como Jos- Maria de Herdia (Revue des Deux Mondes, 
1885).

Alexandre Arnoux publicou uma excelente Lgende du Cid Campeador (Piazza, 
1923) e Georges Fourest traduziu o lamento de Ximena em La ngresse 
blonde (Vanier -1909):

Dieu! Qu'il est joli garon l'assassin de papa!( 3)

5.  Concluso

Esse canto triunfal, nico texto pico de uma tradio espanhola foi, 
desde o princpio, influencia. do pelo espirito francs que se irradiou 
ento sobre toda a Europa. Poema de propaganda, o autor baseou-se em 
documentos humanos. Debaixo de sua boa cota de malha, o Cid combateu para 
ganhar a sua vida. Mas esse personagem bem espanhol veio at ns, no 
tanto pela sua coragem que se assemelha  de Rolando, mas por um fato 
imaginado por Guillen de Castro: a luta entre o dever e o amor. 
Corneille, pela sua conciso, pelo vigor de seus versos cintilantes e 
imortais, forjou sua duradoura personalidade. 77

CAPTULO IV O CICLO ARTURIANO

O ciclo arturiano, apresenta-se como um conjunto vasto e frtil que 
prossegue os Romances corteses. E tambm denominado Matria da Bretanha. 
A figura central continua a ser a de Artur, rei lendrio de origem 
cltica; pretendeu-se ver nesse rei o mantenedor da luta contra os 
saxnios e que, para
salvaguardar sua ilha, deixou-se matar em 542; esse rei liberal teria 
nascido em Tintagel, na Cornualha. Artur  ou Artus  triunfa com suas 
armas maravilhosas, mas tambm pela amizade do mgico Merlin que  
considerado algumas vezes como sendo um personagem real.

A rainha Guenivre, filha do rei Lodagan, figura ideal da dama da corte, 
toma emprestado alguns traos a Isolda, outro personagem do ciclo. 
Guenivre reina sobre os seus cavaleiros que se renem em volta da Tvola 
Redonda; o casal real comanda empresas nobres e temerrias; o geis que 
 ao mesmo tempo um pedido piedoso e uma injuno de defesa, cria um 
obstculo que  a base de perigosas aventuras. A fim de levar a bom termo 
a conquista de objetos- talism e de taas com virtudes mgicas que 
embelezaro os tesouros do rei, as fadas ajudam os cavaleiros. Esses 
combates sobre naturais, esses prprios objetos, vm de uma tradio pag 
muito divulgada.

Quando o poderoso Artur vai penetrar em Roma, a revolta de seu sobrinho 
Mordret  que talvez seja tambm filho do adultrio e do incesto entre 
Artur e a esposa do rei Loth  obriga-o a reconquistar seu reinado. Nessa 
campanha sangrenta, seus leais servidores morrem. Os saxnios aproveitam-
se do sucedido para invadir o pas e, no ltimo episdio da carnificina, 
Artur e Mordret se ferem de morte.

 a runa da cavalaria bret, mas a sua esperana sobrevive. Artur teria 
sido levado vivo para o reino das fadas e um dia voltaria para restituir 
ao seu povo a independncia e o poderio.

O ciclo arturiano contm a extraordinria Demanda do Santo Graal que se 
inicia com um romance de cavalaria e termina como uma narrativa mstica.

Essas demandas permitiram a cada narrador de compor uma narrativa de 
acordo com seu temperamento; os episdios de combate se alternam com 
cenas sentimentais; atos de bravura sucedem s imagens voluptuosas e 
ordens breves de estratgia guerreira, s palestras galantes. Os 
progressos sucessivos afastam pouco a pouco o tema da deixa primitiva e 
depois os romances em prosa efetuam a fuso entre as lendas arturianas e 
as narrativas do Graal.

Essa mitologia cltica ter-se- ia formado por ocasio da invaso saxnia 
(450- 510) e ter-se- ia enriquecido posteriormente com a inspirao vinda 
do continente. A histria Britonum, atribuda a Nnio, foi retomada no 
sculo XII na Histria Regum Brittaniac de Geoffroi de Monmouth (1137). 
Wace menciona a Tvola Redonda no seu Roman de Brut. A origem  talvez 
gaulesa a partir de Kuchwch e 0lwen ou irlandesa como diz Jean Marx 
baseado no texto dos Mafinogion.

Chrtien de Troyes nos legou esse conjunto extraordinrio e sobrenatural. 
Hbil narrador, aproveitou a tendncia do povo pelo fabuloso e criou 
romances de aventuras e de episdios palpitantes. Ao descrever Lancelote 
 procura da, rainha (Le chevalier  la charrette), imaginou um heri que 
tendo merecido o amor de sua amante arrisca-se a adormecer numa vida 
ociosa. Mas Yvain (ou Le chevalier au lion), voltar ao manejo das armas. 
Erec, o cavaleiro do falco, depois das censuras de sua dama Enide, 
encontra novamente sua fora.

No podendo citar todos os trabalhos relativos a esse ciclo (remetemos o 
leitor  Histoire littraire de la France, t. XXX e XXXI, de Gaston Paris 
e aos Romans de la Table Ronde, de Paulin Paris), observaremos que o 
assunto continua a ser o de um jovem cavaleiro desconhecido que, da corte 
de Artur, levar a bom termo uma aventura tida como impraticvel; graas 
s suas qualidades, desposa a jovem que se acha envolvida e que lhe d, 
como dote, um reinado.
Todas essas lendas comportam elementos mticos, pagos, drudicos nos 
quais se envertar uma concepo mstica crist. Histrias humanas 
mescladas de histria sagrada, conjunto que forma a tragdia da fraqueza 
humana cobiando os poderes do esprito (o Graal). Este tema se assemelha 
ao de Fausto; Lancelote ficou sendo o valete de nossas cartas e o uso da 
torta de reis veio at ns. Estudaremos sucessivamente: A demanda do 
Santo Graal, Merlin, Tristo e Isolda.

I. A demanda do Santo Graal 1.  Generalidades

Para a Idade Mdia, o Graal  a taa de que se serviu Jesus durante a 
Ceia. Nela, Jos de Arimatia colheu o sangue do Senhor ferido pelo 
centurio romano Longin. Os genoveses expuseram em 1101, depois da tomada 
de Cesamia, um prato de vidro, venerado pelo nome de Sacro- Catino. 
Prato ou vaso, objeto radiante em ouro ou em cristal, o graal tanto pode 
ser essa esmeralda celeste ou o livro sagrado tal como o evangelho 
perdido de So Joo.

Esses objetos mgicos evocam os dos contos de Mil e uma noites mas no 
embaralhamento desses temas, a descrio da cena do cortejo continua 
primordial. Estudaremos antes de tudo a evoluo do ciclo.

2.- Os temas

a) Chrtien de Troyes, Parsifal  Chrtien de Troyes, natural de 
Champanha, teve que compor Perceval ou le conte du Graal a pedido de 
Filipe da Alscia, conde da Flandres, noivo da protetora do poeta: Marie 
de Champanha.

No sabemos onde Chrtien tirou os seus dados; o texto teria sido escrito 
entre 1180- 1183; Wilmotte diz que foi antes do 14 de maio de 1181. Eis o 
assunto:

Parsifal  criado por sua me num domnio solitrio Depois de uma 
aprendizagem bastante rudimentar, recebe a ordem de cavaleiro e liberta 
Branca Flor ento sitiada.  recebido no castelo mistrioso, pelo rei- 
pecador paralisado por uma lanada na coxa. Espectador ingnuo assiste ao 
desenrolar de uma estranha cerimnia: o anfitrio entrega-lhe uma espada. 
Um mordomo leva-lhe uma lana toda branca cuja ponta est embebida de 
sangue; mais longe, uma jovem carrega o graal (clice) de ouro muito 
puro, guarnecido de pedras preciosas e que difunde uma claridade 
sobrenatural; depois outra jovem carrega um prato de prata. Parsifal 
estupefacto cala-se; no dia seguinte, afasta-se do castelo deserto. Uma 
jovem ter-lhe- ia revelado que devia perguntar sobre a significao da 
cena; com suas palavras libertadoras teria curado o rei enfermo e o 
encantamento da regio adormecida e estril teria cessado; Parsifal 
recusa ento dormir duas noites seguidas debaixo do mesmo teto. Durante 
cinco anos realiza as mais perigosas aventuras; esses episdios fabulosos 
dependem do fantstico e so de uma iniciao ritual cujo verdadeiro 
sentido nos escapa. Um eremita  seu tio  aconselha-lhe ento a 
caridade, a humanidade e lhe transmite uma orao secreta que lhe 
permitir, talvez, encontrar o graal.

Assim termina o romance de Chrtien, de dez mil e sessenta e um versos 
octossilbicos. Entre os prosseguidores a parte pseudo- Wauchier se 
estende at o verso 21.916 (edio Potvin) e se ocupa de Gauvain. 
Wauchier de Denain  ou um autor annimo  trata das propriedades da 
espada entregue a Parsifal (verso 34.934) e faz da lana uma relquia 
divina. Manessier, em 1225, a pedido de Jeanne de Flandre, termina essa 
obra: Parsifal torna-se o guardio do Graal (versos 34.934 a 45.379). 
Muitos outros poetas participam com a sua contribuio pessoal, tais como 
Gerbert de Montreuil que comps dezessete
mil versos insuficientes para que Parsifal pudesse recolher a sucesso do 
rei- pecador. Ferdinand Lot analisou essas obras (Romania, I. VII, 1931).

Obra enigmtica com Chrtien, o tema  assume uma significao mstica e 
religiosa. O graal  que no era o Graal  no era nem uma relquia 
santa, nem um tacho de abundncia; nenhum capelo assiste ao desfile da 
lana que sangra. O tema goza rapidamente de um xito prodigioso e 
inspira outros poetas.

b) Wolfram d'Eschenbach et Guiot  Wolfram d'Eschenbach compe Parzival 
entre 1200 e 1210. Diz ele: Mestre Chrtien de Troyes contou essa 
histria, alterando- a e Kyot que nos transmitiu o conto verdadeiro 
irrita-se e com razo. O Provenal... Discutiu-se muito sobre a 
existncia desse poeta Guiot ou Kyot. Para Schreiber e San Marte trata-se 
de Guiot de Provins, o acre satrico da Bblia. Wilmotte pensa no autor 
de um Miracle de la Vierge (Milagre da Virgem) entre 1150- 1180. Ser que 
Guiot precede Chrtien? A questo permanece sem soluo. Com Wolfran o 
cerimonial do desfile se complica, lembrando-nos a coreografia de um 
ballet. O Graal  ento uma pedra santificante dada por Deus a Ado (era 
a esmeralda frontal de Lcifer). Seth, terceiro filho de Ado, obteve 
licena para entrar no Paraso a fim de retomar a pedra. L ficou 
quarenta anos  nmero da expiao  e esse clice ser entregue por 
Pncio Pilatos a Jos de Arimatia que nele recolheu o Sangue Divino; 
depois de quarenta anos de priso e depois de Vespasiano haver destrudo 
Jerusalm, Jos, acompanhado por sua irm Enigia e de seu cunhado Bron, 
se estabeleceu na Gr- Bretanha, no pas de Hofelise onde constri o 
castelo Aventureux; a cidade de Corbenic se estendeu em volta. Pela 
linhagem de seu sobrinho Josaf, ser concebido Galaad.

A ordem misteriosa dos Templeisen  encarregada de guardar essa pedra; 
Parsifal suceder a seu tio Anfortas. Le nouveau Titurel  poema de seis 
mil duzentas e sete estrofes  atribudo a Albreht de Scharpfenberc (por 
volta de 1280), adapta para o alemo a histria de Merlin conforme Robert 
de Boron. A base mstica do conto se desenvolve; Montsalvage, lugar 
santo, seria Montsgur na Frana ou Montserrat na Espanha.

c) Robert de Boron  O Saint- Graal ou Joseph d'Arimathie  uma narrativa 
curta, de trs mil quinhentos e catorze versos e baseada em narrativas 
apcrifas.  A lenda de Jos alcanou grande celebridade em Lorraine. 
Depois do verso 2.357 o autor d livre curso  sua fantasia. Esse romance 
que recebeu a influncia das abadias de Fcamp e de Glastonbury e por 
meio delas, de Gautier Map, foi composto entre 1212- 1214 (F. Lot, 
Romania, 1931; Hoepffner, Lumire du Graal, 1951). Eugene Hucher (1875), 
Suchier (1892) procuraram a origem de Robert de Boron; de anglo- normando 
passou-se a consider- lo atualmente franco- condado.

O grande mrito de Boron  haver transformado a lenda fazendo do Graal um 
smbolo da divina graa a qual aspira a alma humana. A tendncia  
asctica e corresponde ao ideal monstico cisterciense.

Parsifal em prosa tambm  atribudo a esse poeta e  conhecido por 
Didot- Parsifal. d) Gautier Map. A demanda do Santo Graal  La queste del 
Saint- Graal, atribuda d Gautier Map, teria sido composta entre 1225- 
1230. Os estudos de Pauphilet (tude sur la queste, Champion, 1921) de 
Etienne Gilson (Romania, L. I. 1925; Vrin, 1932) iam provar a influncia 
cisterciense, a doutrina mstica de So Bernardo e estabelecer uma 
relao com Robert de Boron. Parsifal  substitudo pelo cavaleiro casto 
Galaad, messias arturiano. O Graal torna-se o smbolo de Deus. Neste 
evangelho aventuroso (Pauphilet), a explorao terrestre termina com a 
descoberta de uma revelao planetria. Obra espiritual,  a histria de 
uma alma  procura de Deus. Esse conhecimento, com suas divulgaes 
habilmente graduadas, conduz  humildade,  contemplao e  compreenso. 
A suprema beatitude, o xtase levam
Galaad para o cu. A Demanda que se ergue veementemente contra o 
assassnio, as festas cavaleirescas e os torneios, transformou o cortejo 
tradicional num ofcio religioso; o Santo Graal se desloca pela fora 
invisvel de Deus e a missa celebrada em Corbenye  dita por Josephes, o 
primeiro bispo.

Gauvin  a imagem do mau cavaleiro.  assim que o Lancelot en prose 
(Lancelote em prosa) impor duras provas a este cavaleiro falho de f; o 
mesmo se d com Bohort.

Lancelote, considerado como o melhor dos cavaleiros, no pode tampouco 
triunfar. Suas aventuras galantes, seu amor sacrlego pela rainha tornam- 
no indigno dessa conquista bem sucedida pelo seu filho Galaad, 
descendente de Jos de Arimatia por sua me. Esse puro entre os puros 
termina essa busca do infinito.

A est a busca da perfeio terrestre onde os desejos humanos so 
satisfeitos: e) Perlesvaus  Perlesvaux, atribudo a Manessier (1225- 
1230) conta a aventura de Parsifal conforme o poema de Chrtien. Sob a 
influncia dos monges de Cluny  esta obra  de menos valor do que a 
Queste  interpreta pela primeira vez a mstica do sangue divino: o 
sangue da lana escorre dentro do Santo Graal. Enfim o silncio do 
nefito  explicado aqui pelo seu xtase no momento da passagem dos 
objetos sagrados.

3.  Sucesso literria

O ciclo breto  novamente trazido  moda no sculo XVIII pelo conde de 
Tressan. O entusiasmo romntico dele se apodera; Wagner o difunde com 
suas preocupaes metafsicas. Paulin Paris decifra os textos; Gast on 
Paris os confronta. Oscar Summer estabelece uma notvel compilao: La 
vulgate Lancelot (Washington, 1909); Douglas Bruce estabelece a 
bibliografia (The evolution of Arthurian Romance, Baltimore, 1923), 
completada pelos cuidados da Sociedade internacional arturiana que reside 
em Paris. As grandes universidades americanas publicam interessantes 
trabalhos.

Georges Burectud (Lumire du Graal, 1951) estabelece um paralelo entre D. 
Quixote e o tema do cavaleiro santo, mas sua comparao entre o Graal e a 
Divina Garrafa do Pantagruel de Rabelais me parece mais engenhosa. O 
segredo supremo do Vin de Verit (Vinho da verdade) assemelha-se ao 
sangue universal; a Santa Fonte que corre conforme a curva de uma espiral 
logartmica (movimento da vida que se enrosca), fornece o vinho desejado 
e mergulha o conviva num delrio bquico prximo ao arrebatamento.

Georges Bureaud descobre ainda esse tema em Milosz nos seus poemas 
dogmticos e metafsicos do Sangue universal (Ars Magna, Arcanes); e na 
obra de Pladan, Lon Bloy, Pguy o no Chteau d'Argol de Julien Gracq.

4.  Origem

A origem da lenda tem muitas controvrsias. A Matria da Bretanha  para 
uns insular (Gaston Paris, Histoire Littraire de la France, t. XXX). Os 
celtistas alemes refutam a transmisso dos temas arturianos por via 
anglo- normanda e Zimmer se pronuncia a favor de uma origem armrica e 
no galesa. Esse sistema  prosseguido por Foerster e Brugger, contestado 
por. F. Lot (Romania, XXIV, XXVIII) e por Loth (Kritischer Jahrest 
bericht, I, 271). Vendryes encontra nesses temas uma sobrevivncia da 
literatura cltica (Cahiers do Sud); Max Gilbert e principalmente Jean 
Marx (La lgende arthurienne), mostram
que a contribuio da Bretanha armrica foi muito pobre mas que a 
literatura galesa introduziu temas admirveis. Jean Marx escreveu: Essa 
lenda arturiana de origem pag e profana ia, de incio, sob influncias 
certamente inglesas (Glastonbury), e em seguida francesas (Clairvaux) 
tomar uma tonalidade cada vez mais crist.

Blochet (Les sources orientales de la Divine Comdie (1901) (As fontes 
orientais da Divina Comdia), mostrava a civilizao preponderante da 
Irlanda que conhecia Bizncio por intermdio das repblicas italianas.

Todavia, outros pontos permanecem litigiosos: as relaes entre as obras, 
a data em que foram feitas, o autor. Apesar do minucioso estudo dos 
dezesseis manuscritos conservados sobre o Graal, essas questes parecem 
insolveis.

5.  Interpretaes

Apesar de Jean Blondel haver escrito: Li conte de Brtaigne sont si vain 
et plaisant, parece que esses mitos exprimem verdades veladas 
assimilveis pelo iniciado. Sentimos, na obra literria, surdirem outras 
interpretaes.

a) Interpretaes astrolgicas e naturistas  Wolfram preocupava-se com a 
astrologia. Ora, o nome de Artur seria oriundo de Arthos, isto , ours 
(Ursa) no simbolismo astrolgico da constelao polar. Esse palcio 
astrolgico torna-se o centro do mundo e Gunon (Le roi du monde, 1927), 
imagina os doze signos zodacos que gravitam em torno do sol como os doze 
cavaleiros que rodeiam Artur. Saint- Yves evoca a zona zodaca; nela 
Lotus Pralt encontra os princpios drudicos de Crom- Lek. Loomis, 
diante das esculturas da catedral de Modena, evoca tambm a teoria solar.

Miss Jessy L. Weston (Cambridge, 1920) insiste sobre o aspecto ritualista 
e liga ao vegetal uma interpretao pelos rgos genitais. Observou que 
os ferimentos atingem as partes viris do rei.

b) interpretaes tiradas de fontes orientais  Georges Dottin aponta na 
literatura irlandesa, motivos tirados da literatura grega e na sucesso 
das provas aproxima-se das narrativas hindus. Hannah Closs (Lumire du 
Graal) pensa na lenda de Bagavata Purana. Baseando-se no edifcio 
circular e irradiante que  o Templo do Graal, pensamos na arquitetura 
dos templrios idntica  das igrejas armnias e  dos templos iranianos.

Otto Rahn localiza o castelo Aventureux em Montsgur  outros em 
Glastonbury  e Hannah Closs, pela descoberta de cermicas que a se fez, 
pensa no maniquesmo. Gunon, (Le roi du monde) estabelece relao entre 
o Sangue Divino  beberagem da imortalidade  e o Soma dos hindus ou o 
Haoma dos persas; depois compara a esmeralda cada da fronte de Lcifer  
que tornou-se a taa  a Urna, prola frontal e terceiro olho de Civa.

Chrtien menciona o gavio, representao oculta da conscincia; ora, o 
gavio simboliza o grande Horo egpcio.

Finalmente, como na fbula antiga, os animais exprimem as paixes dos 
homens, e a cada animal liga-se um simbolismo.

c) Interpretao religiosa  Essa obra mstica tornou-se finalmente a 
glorificao do sacramento eucarstico. Os evangelhos apcrifos vindos de 
Bizncio  e principalmente o Apocalipse, apontam esse
tema (observemos os algarismos rituais 3, 7, 12 e a cor branca). O homem 
se liberta da fatalidade antiga e prostra-se diante do mistrio da 
redeno. Chrtien considera os acontecimentos histricos (transporte da 
galheta com o Santo- Sangue a Bruges por Thierry d'Alsace; descoberta da 
Santa- Lana em Antioquia.); a carne se submete  alma e a alma, ao 
esprito. O heri da Queste  primeiro livro filosfico  seria a 
representao mstica do Cristo. Mas Jean Marx (La lgende arthurierine) 
mostra que a igreja no adotou a aventura do Graal que continua sendo 
obra de um sacristo inspirado pela doutrina espiritual de So Bernardo. 
Se a Igreja se houvesse apoderado dessa lenda, os textos teriam sido 
conservados nos mosteiros; mas guardados nas bibliotecas dos nobres, 
perderam-se em parte. A Igreja, lembrando-se dessa origem pag, no lhe 
deu muito lugar na representao artstica. Otto Rahn (Croisade contre le 
Graal (Cruzada contra o Graal), Stock conclui que foi contra o Graal que 
se mobilizou a cruz por ocasio da cruzada albigense.

Lotus Pralt (L'sotrisme de Parsifal (O esoterismo de Parsifal, 
Perrin, 1914), diz que o princpio drudico  visvel na Queste. Todavia, 
ignora-se quase tudo sobre as grandes comunidades visitadas por So 
Patrcio no sculo IV, ficando o pas de Gales ao abrigo das influncias 
estrangeiras. O prolongamento do druidismo foi encontrado no sculo XII 
na igreja culdeana e seu ensinamento  bsico na instituio da igreja de 
Roma.

d) Interpretao esotrica 1) Generalidades  Valores esotricos e 
iniciticos podem se sobrepor ao sentido exterior. Ren Guenon 
(Esotrisme du Graal (Esoterismo do Graal) observa que esse simbolismo  
disfarado e que as dvidas, as contradies aparentes tm talvez por 
objetivo desviar a ateno dos profanos. Teriam sido os autores 
iniciados? No saberamos responder; mas a organizao inicitica 
presente  drudica e depois crist  no quis que a lenda se tornasse um 
ritual de iniciao ou de vulgarizao. A perda do Graal parece ser o 
obscurecimento do centro espiritual secundrio e a iniciao deve fazer 
com que seja encontrado.

Victor- Emile Michelet: Les secrets de la chevalerie (Os segredos da 
cavalaria, Bosse, 1928), busca o simbolismo na forma da Tvola redonda 
com os druidas, quadrada com Jos de Arimatia, o arcano subsiste para a 
da Ceia que Leonardo da Vinci representou sob a forma de um retngulo 
oblongo. Percebe-se um significado nesses smbolos e pensa-se em Gauvain 
que leva o pentculo do Tarot. A cor preta na indumentria de certos 
cavaleiros isenta-os de uma influncia mals;  o pentculo mgico.

A Igreja esotrica revela dessa forma um dos aspectos da sua face 
interior, o esoterismo. Esses caracteres encontram-se em Dante e no 
Romance da rosa.

2) 0 centro supremo  Para Gunon (Le roi du monde (O rei do mundo, 
1927), Graal quer dizer ao mesmo tempo vaso (grasale) e livro (gradale ou 
graduale); Monsalvat  o monte da Salvao  ilha sagrada ou montanha 
polar, terra da imortalidade que se identifica com o Paraso Terrestre. A 
lana torna-se o eixo do mundo e o sangue que dela provm  o orvalho que 
se emana da rvore da Vida. Artur  raptado em Avallon, ilha hiperbrea, 
sede da realeza e da dinastia dos padres Jean; esse Paraso Terrestre  
ainda, simbolicamente, designado pela ndia.

Julius Evola diz que o pas do Graal no  a Inglaterra mas sim o centro 
nrdico primordial, Thul. Evola pensa tambm na ordem dos Templrios, 
cujos ltimos representantes, os Rosa- Cruz, conservam o mito da citadela 
solar. Gunon imagina a representao do centro do mundo no princpio 
central de Omphalos e que  tambm o centro de uma roda. Sua 
representao material continua a ser a pedra sagrada  o menir  para os 
celtas  morada da Divindade. A Irlanda fornece grande nmero de dados 
relativos a
Omphalos. Gunon, observa, enfim, a equivalncia simblica existente 
entre o crescente, o navio e a taa; eis porque o Graal  designado pelo 
nome de Santo Vaso.

3) 0 poder oculto do sangue  Chrtien teria pretendido traduzir 
exotericamente uma lenda esotrica na qual o sangue continua a ser um 
poder oculto excelente pela sua figurao misteriosa. Base de todo o 
princpio vital  o arcano da profecia, da evocao, dos batismos em 
certos mistrios. Marca a descendncia hereditria e pelo seu princpio 
racial a desigualdade no casamento, o adultrio, so punidos com a morte. 
Essa pureza de sangue  a virtude do indivduo, do cl, da nao, da 
raa.

Para Chrtien, o sangue sublinha a alvura do cisne moribundo, esse cisne, 
smbolo da pureza, que est no limiar da primeira iniciao. O sangue 
est ainda presente no ferimento do rei pecador: leva em si todos os 
desejos violentos da carne. O problema do sangue, licor solar, fora 
impulsiva, vontade csmica foi mencionado por Thophile Briant (Le 
Goland, dez. 1953). Mas talvez seja tambm a sede da alma. A presena do 
arcano nas cerimnias religiosas  a base dessa demanda do Graal que 
continua vlida para todos ns. 4) 0 rito da iniciao  Elie Lebasquais 
(tudes traditionnelles, 1939),  de opinio que A demanda do Santo 
Graal, Fausto, Rolando, so rituais de iniciao da mesma categoria que O 
Pequeno Polegar. O heri, para chegar ao estado superior, busca um 
personagem, um tesouro ou um objeto mgico. No simbolismo de Hiram, trs 
mestres procuram os restos do Grande Arquiteto. Esses ritos proviriam de 
tradies antigas, de formas tradicionais desaparecidas, conservadas pela 
memria coletiva mais ou menos subconsciente do povo (Guenon). Essa 
iniciao visaria aqui a conquista de estados sobre- humanos.

5) A alquimia e a cavalaria  Na linguagem secreta a pedra filosofal 
representa a salvao; o ouro nada mais  do que o hierglifo da 
espiritualidade e das foras psquicas de Deus. A demanda  ento uma 
busca semelhante  dos alquimistas que eram filsofos hermticos; citemos 
Alberto, o Grande, Roger Bacon, So Toms de Aquino, Nicolas Flamel.

O arcano  a base da ordem da cavalaria  que deu origem ao 
companheirismo operrio  e  arte herldica. O braso  a chave da 
histria da Frana, diz Grard de Nerval. Nessa cavalaria histrica, os 
Templrios foram os guardies do Baphomet; os cavaleiros errantes eram 
atacados pelos drages, smbolos do guarda da entrada, ou pelo leo 
animal solar, alegoria da paixo interior. O alquimismo  a conseqncia 
final dessa cavalaria mgica e essa viagem de aventuras de uma epopia 
religiosa e cientfica  a mesma que a da Demanda do Santo Graal.

II. -merlin

Personagem lendrio, Merlin  em cltico Myrddhin, em armoricano Marzin  
foi poeta, profeta e mgico. Companheiro do rei Artur, estabeleceu a 
Tvola redonda e seu nome fica ligado  demanda do Santo Graal.

1.  Textos literrios

a) A crnica latina  Na Crnica latina, atribuda a Mnio (fim do sculo 
X), v-se o rei breto Wortingem abandonado pelos seus devido  sua 
crueldade. Desejoso de uma fortaleza que no pudesse ser tomada, os 
mgicos aconselham- no a regar o solo com o sangue de uma criana nascida 
sem pai. Merlin  nomeado Ambrsio  confunde o rei com suas respostas 
profticas e salva assim a sua vida.

b) Geoffroy de Monmouth  Em aproximadamente 1135 Geoffroy de Monmouth d 
um carter
cavaleiresco, corts e histrico  lenda de Mnio. A pedido de Alexandre, 
bispo de Lincoln, redige as Profecias (Atribudas a Merlin) e depois a 
Vita Merlini.

c) Robert de Boron  Esse autor inclui o nome de Merlin  lenda do Graal. 
Sua trilogia comporta um poema sobre Merlin que institui a Ordem da 
Tvola redonda (Brut de Wace mencionava a Tvola redonda em 1155). Merlin 
 o heri de uma epopia espiritual.

d) Os continuadores  O simbolismo desaparece e a profecia torna-se um 
meio literrio. Merlin aparece em numerosos romances (Claris et Loris). O 
Ariosto, Cervantes (Don Quixote, II, 21), Rabelais, Shakespeare (O rei 
Lear, III, 11), observam esse personagem que inspirou Gluck (A ilha de 
Merlin, Viena, 1758). Para K. L. Immermann (Merlin, 1832)  um Fausto 
cristo; Heine por ele se interessa (1835) bem como Tennyson (Vivien, 
1859, 0 Santo Graal, 1870), e Edgar Quinet (Merlin l'enchanteur, 1860). 
Apollinaire escreveu L'enchanteur pourrissant (1909), Cocteau, Les 
chevaliers de la Table ronde e Aragon Brocliande (Cahiers du Rhne, 
1942). Contudo, a lenda de Merlin parece estar a caminho da extino.

e) As crticas  Depois dos estudos de Ble (1559), Buchanan (1590), 
David Powel (1603),  preciso esperar a de Walter Scott (1638) para tocar 
realmente o assunto (The Ministrelsy). Francisque Michel e Thomas Wright 
(1837), tentaram uma sntese crtica. Depois de Saint- Aignan (1921), de 
Eschevanns (1935), Paul Zumthor apresentou, em 1943, uma tese  
Universidade de Genebra com uma bibliografia muito completa.

2.  Smbolo da lenda

a) Origem de Merlin  O nascimento desse Proteu da Idade Mdia  muito 
obscuro. De acordo com Robert Boron, o diabo seduziu uma virgem; Merlin, 
com sua palavra eloqente faz com que sua me, tornada responsvel por 
esse estranho nascimento, seja absolvida. Eis a lenda de Ambrsio cujo 
tema  o de Robert de diable.

Para La Villemarqu a me de Merlin teria sido uma princesa que, 
penetrando num bosque atrada pelo canto de um pssaro, adormeceu e a 
criana que nascer de modo to sobrenatural e potico, falar 
imediatamente. Supe-se tambm que seja um personagem real, um burdo 
gals ou da Cornualha do sculo VI; ou um deus gauls, parente de 
Mercrio, Merddyn cujo nome vem da raiz Mercs encontrada em Mercrio.

b) A ao de Merlin  Mestre do Heptacrdio formulou as regras que regiam 
os cavaleiros da Tvola redonda; dirige as batalhas e sua harpa encanta 
os poderes hostis; comanda os demnios, encanta as fadas.

O episdio mais dramtico continua a ser o do seu amor por Viviana. Todo- 
poderoso, deseja que essa mulher o procure livremente; mas o temor de 
Viviana torna-se odioso. Merlin transformou-se no profeta vencido pelo 
amor e o encantamento feminino.

c) Evoluo do personagem  Profeta, Merlin no  o mestre de uma 
alquimia misteriosa; torna-se a seguir o fascinador. O papel de Merlin ao 
lado dos cavaleiros arturianos permanece, entretanto, episdico. Seu 
simbolismo corresponde s nossas exigncias pessoais e finalmente nada 
mais  do que uma significao potica.

III.  Tristo e Isolda
Esse par imortal influenciou inmeros episdios do ciclo arturiano.  a 
epopia do amor que se prolonga alm da morte.

1.  O tema

Tristo de Loonois  criado por seu tio Marc, rei da Cornualha. Ferido 
pela espada envenenada do Morhout da Irlanda, a quem mata, Tristo se faz 
tratar pela irm do monstro, a rainha da Irlanda, cuja filha  Isolda. 
Mais tarde, em nome de seu tio, Tristo pede a mo de Isolda e dessa 
forma reconcilia os dois pases inimigos. Porm, durante a travessia, os 
dois jovens bebem um filtro de amor. Unidos pela paixo, trados pelos 
que os circundavam, banidos por Marc, os dois amantes vivem na floresta 
de Morois; o rei perdoa-os; Tristo deixa Cornualha e esposa uma segunda 
Isolda. Ferido, pede  sua loura amiga para trat- lo: um vu branco 
anunciar sua chegada, um vu preto sua recusa. A segunda Isolda, por 
cimes anuncia um vu preto. Tristo morre. Isolda chega e sucumbe ao 
lado do seu amante. O rei Marc, conhecendo a causa de sua paixo, perdoa 
e honra a sua memria. A loucura de Tristo  um episdio desse tema e a 
sntese do romance. Tristo, disfarado em louco, quer rever Isolda. As 
aluses feitas aos seus amores so ousadas e formam um resumo assaz rico 
da lenda; a evocao de suas aventuras  a parte essencial do poema.

2.  As fontes

Os romances de Chrtien de Troyes e de La Chvre no chegaram at ns. O 
texto de Broul (1165- 1170) conserva quatro mil, quatrocentos e oitenta 
e cinco versos (publicados por Muret, 1904  manuscrito de Beme); o 
manuscrito do anglo- normando Thomas tem s trs mil, cento e quarenta e 
quatro versos (dos dezenove mil) (publicados por. J. Bdier, 1903 e 1905; 
manuscrito de Oxford).

A loucura de Tristo (manuscrito de Oxford) acompanha de muito perto o 
poema de Thomas (traduo de Joseph Bdier, 1907). Os poemas de Eilhart 
d'Oberg e de Godofredo de Estrasburgo, os mil e quinhentos versos de um 
annimo permitem a reconstituio desse conjunto.

Para Andr Mary (Tristan, N. R. F., 1941), a obra seria proveniente de 
jovens sacristos letrados de lngua francesa, que conheciam as lendas da 
Grcia (Teseu, o rei Midas) e que tinham lido Ovdio e Virglio Pode-se 
discernir o elemento mtico no maravilhoso do filtro e na natureza do 
heri vencedor de monstros. Esse tema se encontra na Irlanda e Joseph 
Loth est inclinado por uma verso galesa.

3.  A obra literria

Godofredo de Estrasburqo prosseguiu o tema de Thomas e influenciou 
Friberg. Hans Sachs, dele tirou sua tragdia (1553). 0 conde de Tressan 
recolhe a lenda no sculo XVIII e os romnticos o enalteceram. Schlegel 
(1800), Rckert (1839); Walter Scott (1811), Immermann (1839) compuseram 
poemas. Hermann Kurtz (1844) e depois Simrock (1855) estabelecem em 
alemo moderno o texto de Godofredo  Hertz completa essa traduo com a 
anlise do texto de Thomas. Francisque Michel rene os textos ingleses e 
normandos.

O drama musical de Wagner escrito entre 1857. e 1859  interpretado em 
Munique em 1869 e em Paris em 1899. 0 assunto ainda  encontrado com 
Joseph Weilen (Breslau, 1860), L Schneegans (Leipzig, 1865), Carl Robert 
(Berlim, 1871) ou no Le lai du chvrefeuille de Marie de France.

O filme de Cocteau (L'ternel retour) pela beleza esttica de suas 
imagens lembra os Visiteurs du soir de
Carn no qual o amor de duas criaturas triunfar das ciladas e da ira do 
diabo.

4.  Sobre alguns amantes eternos

Vem-nos  memria Romeu e Julieta, Dafne e Clo, Paulo e Virginia, Manon 
e o cavaleiro dos Grieux, Fedro e Hiplito. Porm as desgraas de um par 
bem real, Helosa e Abelardo so ainda mais tristes.

5.  Simbolismo da lenda

Isolda permanece virgem no adultrio; engana o bom rei sem remorso 
aparente e essa mulher, apesar de tudo, continua simptica. Vemos com 
indulgncia esses amantes que, mais do que os outros, so submetidos  
fatalidade. As pginas que relatam seus amores reprovveis tornam-se 
assim patticas. A simplicidade primitiva do conto eleva, acima de todas 
as leis, essa epopia do amor.

A velha magia cltica est presente nesse filtro que implica a fatalidade 
do amor e cria esse liame misteriosamente indissolvel. O amor, essa 
polaridade magntica  polaridade devida a Deus, pois Eva, o superior 
feminino, vem de Ado andrgino e  sua sensibilidade volitiva o que 
significa a separao do ente em dois plos, o negativo e positivo  
explica-se pelos efeitos da bebida. Porm Jean Marx (La lgende 
arthurienne) v em tudo isso a representao do geis imposto pela 
mulher ao seu apaixonado. Eis a razo por que essa lenda est sujeita ao 
fatalismo e  melancolia.

Em concluso, o ciclo arturiano com sua maravilhosa Demanda do Santo 
Graal  a confirmao de um longo itinerrio potico e espiritual. O 
esoterismo do Graal  inegvel, e se revela nessa transmutaco de uma 
fbula predestinada num smbolo cristo. Exegese teolgica e mstica, 
esse tributo medieval  rico em ensinamentos e nunca morrer, pois sempre 
surgiro dele novas interpretaes. 100

CAPTULO V O MARAVILHOSO DA LENDA I  Gargntua

Gargntua evoca Rabelais. Contudo Eloi Johanneau (Variorum, t. I, pg. 
37), Ph. Chasles (Tableau de la littrature franaise, 1829), J. Grimm 
(Mythologie allemande, 1837), pensam numa tradio antiga. Rabelais criou 
um heri nacional cujo nome expressivo tornou-se uma imagem popular.

1.  Origem

H. Gaidoz (Revue archologique, set. de 1868), baseando-se na radical da 
palavra  gar  v nessa radical uma divindade; o deus da luz Garuda ter-
se- ia tornado o Hrcules gauls. Esse principio drudico estaria ainda 
presente no seu culto das pedras.

Porm os gigantes so conhecidos; e o nome de Gargntua figura na Lgende 
de maistre Pierre Paileu de Charles Bourdign (1526). Tiel Ulespigle 
legou a palavra espigle mas esse farsante inspido e sem esprito, 
comparado com Panurge, no tem nem a sua sutileza nem a dicacidado. 
Rabelais teria se inspirado na Histoire maccaronique de Merlin Cocaie 
(Histria macarrnica de Merlin Cocaie). Com efeito, o episdio dos 
carneiros  tambm encontrado no primeiro.

2.  Os gigantes.

Como os elfos, os anos ou os ciclopes, os gigantes so a personificao 
dos grandes fenmenos (furaces. estaes, geadas...); quase deuses: 
Thrym rouba o martelo do deus Thor; Mimir, o gigante das guas, aconselha 
Odin. So entes poderosos: Egir  o senhor dos mares e sua esposa Ran 
captura os navegadores.

Para a Igreja catlica, o gigante substitui o diabo. Em 1100 os elementos 
pagos e cristos se misturam; o povo aceita o cristianismo sem contudo 
rejeitar as crenas tradicionais. E desta forma que Geoffroi de Monmouth 
faz evoluir Gurgunt em sua epopia bret retomada por Wace (Roman de 
Brut, 1155).

3.  A obra de Rabelais

Depois do xito das Grandes et inestimables chroniques de l'norme gant 
Gargantua (Grandes e inestimveis crnicas do enorme gigante Gargntua) 
(1532)  devidas talvez a Billon d'Issoudun  Rabelais edita Les 
horribles et pouvantables fats et prouesses du trs renomm Pantagruel 
(Os horrveis e espantosos feitos e proezas do mui renomado Pantagruel) 
na editora Claude Nourry, conhecido por Le Prince (3 nov., 1532); o livro 
 assinado Alcofribas Nosier; o Almanach pantagrueline pronostication 
aparece em 1533 (Lio, Franois Juste).

A Faculdade de Teologia condena o Pantagruel em 23 de outubro de 1533. 
Porm, Rabelais, como mdico, acompanha o bispo de Paris, Jean de Bellay, 
que parte para Roma onde vai pleitear os interesses de Henrique VIII 
excomungado por haver esposado Ana Bolena (1534). Com essa proteo 
Rabelais publica, em 1534, seu Gargntua (edio definitiva, 1542, Lio, 
Franois Juste). Le tiers livre (1546), de gosto mais rebuscado, expe a 
questo do casamento, Le quart livre (Lio, 1549) narra as buscas da 
Dive Bouteille. e da passagem do Noroeste.

4.  Valor dessa obra

Os romances de Rabelais tiveram imensa popularidade. So os livros de um 
erudito que, de maneira divertida, num estilo falado, contm aluses 
polticas e religiosas. Gargntua  um preito em favor do Renascimento e 
da Reforma. Apesar de Rabelais ser prudente, de pregar sem falar demais, 
percebe-se nele o pensamento de Erasmo, clebre pelo seu Institution du 
prince chrtien. Rabelais tambm foi um iniciado.

Saulnier (Mercure de France, 1- 4- 1954) mostrou que essa filosofia do 
beber era o smbolo de uma busca da sabedoria. O festim perante Chaneph  
erguido com aluses  Ceia e faz pensar na Comunho Eucarstica.

Les grandes et inestimables chroniques (1532) teriam inspirado Rabelais. 
Ora, nelas encontramos novamente o mgico Merlin, que d origem aos pais 
de Gargntua, futuro servidor do rei Artur.  talvez a que se deve 
buscar a analogia que notamos entre a busca da Dive Bouteille e alguns 
episdios do Santo Graal.

Na verdade a obra de Rabelais, de inteno evanglica, continua 
profundamente esotrica com seu simbolismo aparente.

5.  A sucesso literria

Rabelais foi muito imitado. Os livros transportados pelos bufarinheiros 
referem-se, em geral, s Grandes e inestimables chroniques de 1532:  o 
caso de Deckherr em Montbliard, de Plac em Tours, de Pellerin em Epinal 
ou de Oudot em Troyes.

Mas Gargntua  denominado tambm o Judeu Errante  passeou por todas as 
regies. Modelou o solo, formando lagos, crregos e deixando montes de 
lodo que so verdadeiras montanhas. Uma crnica do sculo XVI diz que ele 
a engendr le fleuve du rosne en pissant trois mois, six jours, treize 
heures trois quarts et deux minutes. Essa geografia gargantuesca foi 
notada por A. Van Genned em Le folklore de Bourgogne, 1934; (0 folclore 
de Borgonha) por Sbilot (Les Traditions populaires, 1883) (As tradies 
populares), e por Carnoy (Contes franais, 1885).

6.  Concluso

Rabelais, fiel  tradio das crnicas de gigantes, soube exprimir, entre 
suas invenes burlescas, idias novas e profundas. No temeu opor-se  
ordem estabelecida e traou um programa de vida no qual o humanismo 
evanglico ocupa um lugar preponderante.

II.  O Judeu Errante

O judeu Isaac Lequedem da tribo de Levi, denominado tambm Ahasvero  
Sapateiro  recusou qualquer socorro a Jesus supliciado. Por essa falta 
de caridade, caminhar at o juzo final conforme a maldio divina.

1.  Criao literria

Em 1228, um arcebispo da Grande Armnia, ao visitar o mosteiro de Saint- 
Alban, narrou a lenda de Jos  ou Cartafilo  porteiro do pretrio, que 
bateu em Jesus e foi condenado a esperar a volta do Senhor. Caindo, de 
cem em cem anos, em letargia, recupera sua aparncia corporal do tempo da 
paixo (trinta anos). O arcebispo diz ter almoado com Jos. Mathieu 
Paris, recolhe a lenda e registra- a, em 1252, na sua Histria Major; 
Philippe Mousket, bispo de Tournai, menciona o mesmo episdio na sua 
Chronique rime (em aproximadamente 1243).

Entretanto, essa lenda no aparece no folclore armnio. Gaston Paris 
(Lgendes du Moyen Age, 1912), observa que Cartafilo devia ser romano e 
no judeu pois que foi empregado por Pilatos.

A. d'Ancona mostrou (Romania, t. X e XII) que o personagem obsedava a 
imaginao da Idade Mdia.

2.  Evoluo da lenda

Uma carta em alemo, datada de 29 de junho de 1564 afirma que Paul 
d'Eitzen, doutor em teologia e bispo de Scheleszving, encontrou o Judeu 
errante em Hamburgo em 1542. 0 redator alemo, protestante, teve que se 
servir desse nome para autentificar uma narrao lendria. A narrao de 
Chrysostornus Duduloeus Westphalus (Leyde, 1602), teve numerosas 
reedies.

Em 1575 esse erradio  encontrado na Espanha; apresenta-se aos 
Magistrados de Estrasburgo; Pierre Louvet o v em Beauvais (1614). 0 
advogado Bouthrays, na Histoire de son temps (t. II, XI, 1604),
observa que  toda a Europa se  ocupa com esse personagem que inspira as 
artes. Depois da .publicao em Bordus dos Discours du vritable Juif 
Errant (Discursos do verdadeiro Judeu Errante) (1609), as cartas de 
Prtendu Espion Turc (Pretenso espio turco) torna-se Michob- Ader 
(Paris, 1680).

3.  Origem literria

Gaston Paris pensa em Caim, o erradio fugitivo, em Samiri que foi 
condenado por Moiss a caminhar sem descanso por ter adorado um bezerro 
de ouro. Malc, que esbofeteou o Cristo com sua luva de ferro e gira em 
torno de uma coluna at o juzo final. Mas a lenda mais notvel parece 
ser a de Jean Boutedieu, conhecida pelas cruzadas estabelecidas na Sria. 
 encontrada nos mistrios provenais, na cano de gesta de Fierabras 
(Ferrabras) na qual o leproso Marcos bate Jesus e na Espanha sob o nome 
de Juan Espera- en- Dios. Philippe de Novare anotou- o no seu Livre en 
forme de plait (1250).

4.  Evoluo do personagem

Discpulo bem- amado ou culpado? So Joo, bem como Jos de Arimatia so 
imortais e entretanto o cristo espera apenas a graa do cu. A vida 
tranqila de Cartafilo sucede a vida errante de Ahasvero. Mas o erradio 
pra nas vilas, professa, toma assento  mesa de Paul d'Eitzen. Esses 
dois homens so to diferentes que Droschen (Iena, 1668), Frantzel e uma 
brochura de 1645 so de opinio de que existem dois testemunhos da 
paixo.

Porm, em aproximadamente 1800, o judeu errante no pode mais parar; 
possui apenas 5 soldos no bolso que se renovam  medida que os vai 
gastando.  um timorato. Goethe pensa em tratar dessa lenda, mas Fausto, 
que tambm pode renascer,  muito mais humano.

5.  A sucesso literria

Depois das obras annimas, as edies tais como La chanson de Branger, a 
pera de Scribe e Saint- Georges com a msica de Halevy. Grard de Ner 
vai traduziu Schubart numa meditao filosfica.

Gustave Dor firma esse personagem que permite a Eugene Sue compor o 
primeiro romance- folhetim. Mlies, em 1904, consagra-lhe uma curta 
metragem cinematogrfica e histrica; lendas relativas  Paixo 
encontram-se intercaladas nessa obra. Da as obras de Edgard Quinet 
(Ahasverus, 1834), de Ed. Fleg (Albin Michel, 1953), de Alexandre Arnoux 
(Carnet de route du Juif Errant, Grosset, 1931). Depois deste livro 
vibrante t'Serstevens criou seu encontro com D. Juan (La Lgende de Don 
Juan, Gonet, 1946); num dilogo cintilante D. Juan torna-se o Judeu 
errante do amor. J. C. Cordeau (Ahasverus, Jouve, 1951) observa os 
simuladores que vo do desertor (Lopold Delporte, 26 de maio de 1623), 
aos impostores, tais como o conde de Saint- Germain ou Cagliostro. Outros 
homens, seguindo a convocao geral do ano 1000, j haviam endossado essa 
personalidade.

6.  Concluso

O Judeu Errante talvez tenha nascido da imaginao popular. Todavia, o 
castigo parece desmesurado em relao ao ato e dificilmente se compreende 
o rigor de Jesus que sabia perdoar. A lenda pode personificar a nao 
judaica que deve viver entre os outros povos depois da destruio de 
Jerusalm por Tito. Pode ser o emblema da humanidade que caminha 
continuamente para um fim imprevisto.  a alegoria da guerra; a 
explicao mitolgica transforma- a no vento que a conduz.  tambm um 
tema protestante, um
testemunho certo que fortalece a f, um testemunho em favor da veracidade 
dos fatos narrados nos Evangelhos, que combate o mito cristo.

A lenda permite aos autores traar o quadro dos usos e costumes de cada 
pas por onde passa; ou contar a Histria Sagrada. Porm, o personagem, 
vencido por seu erro, no goza das alegrias mortais, as nicas alegrias 
que poderiam lhe ter criado na obra literria um lugar de destaque.

III. Roberto, o diabo

Este belo e doloroso conto da Idade Mdia francesa canta a esperana de 
cada homem: qualquer, que seja o grau de nossos pecados, podemos 
encontrar o caminho da salvao. Roberto, esse ser abjeto e amaldioado, 
torna-se um santo. Obra de moralizao e de encanto, sua ao rpida, 
alerta, acentua os caracteres da cavalaria.

1.  O assunto

Roberto nasce sob uma influncia infernal. Sua adolescncia  marcada 
pelos seus atos de crueldade; porm, ao saber do segredo do seu 
nascimento, quer expiar-se. Em Roma, num recanto do palcio do imperador, 
imita um louco e come com os ces. Porm, quando os sarracenos devastam a 
regio, Roberto, com autorizao celeste, combate e expulsa o invasor.

Depois, no anonimato, retoma o seu lugar de truo. Trs anos mais tarde 
seu feito glorioso se repete e a identidade do cavaleiro branco se 
desvenda; a princesa encontra novamente a palavra para glorificar Roberto 
que, fugindo s honras, se retira do mundo.

2.  Os manuscritos

Um antigo poema de duzentas e quarenta estrofes monorrimas de quatro 
versos datando do sculo XIII foi retomado por G. S. Trbutien 
(Silvestre, Paris, 1837). Outro manuscrito do sculo XIV (ou comeo do 
sculo XV) recebeu os cuidados atenciosos de E. Loseth (1903).

3.  As fontes

a) Literrias  Um texto em latim  de Etienne de Bourbon, dominicano do 
sculo XIII, publicado por Lecoy de la Marche (1877) retoma o mesmo tema, 
bem como uma redao em alemo do sculo XV. Um regato atravessa o quarto 
da princesa: imaginamos o quarto de Isolda.

Este assunto se repete nos Mistrios de Nostradamus (ll. milagre) e no 
Roman de Robert, le Dyable, manuscrito de La Vallire, n. 80 (edio 
Frre, Ruo, 1836). Mas Un miracle de Nostre- Dame d'un enfant qui fu 
donn au dyable, quand il fu engendr (33o. milagre de Gautier de 
Coincy)  publicado pelo padre Poquet (1857; Frre, Ruo, 1836) e Petit 
de Julleville (t. 149; t. II, 310) contm textos anlogos; Paulin Paris 
ocupa-se do Miracle d'un enfant que sa mere donna ao diable  l'eure que 
son pre l'engendra et qui fut port en enfer. Mgicos presidiram tambm 
a esse nascimento: este tema de iniciao  estudado nos temas do conto 
de Barba Azul.

b) Histrico  Nas Chroniques de Normandie pretendeu-se atribuir a 
paternidade de Roberto, o Diabo, a Aubert, duque e governador, da 
Normndia no tempo de Ppin le Bref; depois foi Robert Courteheuse, filho 
de Guilherme; o Conquistador, que teve morte gloriosa em 1134, durante a 
primeira cruzada.
Outros viram nesse personagem o pai de Guilherme, o Conquistador, 
Roberto, o Magnfico (1035). Na verdade Roberto, o Diabo, parece ser uma 
criao.  o tipo do prncipe salteador da Idade Mdia.

4.  Sucesso literria

Se Liebrecht (zur, Volkskunde) v nessa lenda a adaptao eclesistica de 
um velho conto popular pertencente ao grupo do Teigneux, Borinski pensa 
em Robert Guiscard.

Realmente, muitas vezes o demnio se interessa pelas crianas para delas 
fazer suas criaturas. Guillaume d'Orange, as lendas alems de Orendel e 
de Wolf Dietrich, as sagas de Thidrek tm pontos de semelhana estudados 
por Cosquin nas literaturas do Cambodge, de Zanzibar, da Sibria, etc. A 
criana se liberta desse jugo malfico mas conserva os benefcios da 
iniciao nos segredos importantes.

Edelestand do Meril (Etudes d'archologie), Littr e Gaston Paris 
(Romania, IX, 523; XV, 260) estudaram essa lenda que Edouard Fournier, 
depois de uma traduo (Denty, 1879), fez representar no Gaiet, no dia 2 
de maro de 1879. Fora a pera de Meyerbeer (Paris, 1831), as obras de 
Scribe e de Delavigne so interpretaes livres.

5.  Seu ensinamento

Este conto, cujo texto  de uma pureza exemplar, adotou as idias do 
cristianismo medieval. Faz lembrar Saint Alexis que, no dia de seu 
casamento, para se mortificar, foge s alegrias de sua famlia. Esta 
idia de penitncia, de elevao, depois de uma decadncia nativa, tem 
bem um carter popular e moralizador. Roberto, o Diabo, continua a ser 
uma das lendas francesas mais recentes.

IV.  Pierre de Provence

Obra moralizadora  a narrativa de um amor fiel; sua singeleza transmite-
lhe uma graa e uma suavidade bem caractersticas dos Romans courtois 
(Romances corteses) nos quais tudo  encantamento e prodgio

1.  O tema

Pierre de Provence rapta Maguelone, filha do rei de Npoles. Mas durante 
a viagem, Pierre, ao perseguir um pssaro que se apoderou de uma jia, 
extravia-se. Muito tempo separados, os dois amantes se encontram 
finalmente e formam o par mais unido.

2.  As fontes

a) Literrias  Romance annimo conhece-se o manuscrito de Coburgo e a 
edio gtica de Lio, atribuda a Barthlmy Buyer em, aproximadamente, 
1477. Parece que esse texto foi escrito nas regies do sul da Frana em, 
aproximadamente, 1442. As edies Le Roy, em Lio (1485) inspiraram-se no 
mesmo tema muito popular na Idade Mdia.

Conforme Gariel (Ide de Montpellier, 1665), o assunto teria sido 
estudado por Petrarca segundo um texto de Bernard de Trviez. Esta 
hiptese  posta em dvida por Ancona (1889), rebatida por Gaston Paris 
(Romania, t. XVIII, l889, pg. 511). Parece mais certo ser Trviez o 
escultor que ornou o lintel da porta da catedral de Maguelone.

b) Histrico  Vm-nos ao pensamento a ilha de Maguelone, perto de 
Montpellier e nos condes de Toulouse; sups-se ser o bom rei Ren o conde 
de Provena (1435- 1480). Mas com mais certeza pensou-se em Pierre de 
Melgueil que ofereceu o seu condado ao papa Gregrio VII, no dia 27 de 
abril de 1085. Sua esposa era Almodis. Esse generoso conde, glorificado 
pela Igreja de Roma, tornou-se uma figura popular (estudo de A. Germain, 
1854).

3.  A sucesso literria

Duas vezes Cervantes citou Pierre de Provence em D. Quixote. As poesias 
de Tieck, com a msica de Brahms, foram editadas em Berlim, em 1911. 
Mistral trata de Maguelone (Trsor du Flibrige, II, 244) (Tesouro do 
Felibrige) Esse tema popular inspira numerosos artistas e um sarcfago de 
mrmore existe na catedral de Maguelone.

Os elementos desse romance se encontram nas Mil e uma noites (histria do 
prncipe Camaralzanam e da princesa Badur), no poema italiano Ottinello e 
Giulia, no romance francs L'Escoufle. O furto de jias por um pssaro  
um caso comum na literatura.

O romance persa Histoire des amours de Cofros (Histria dos amores de 
Cofros) lembra ainda a narrativa francesa.

4.  Paris e Vienne

Esse romance terminado em 1443 (conforme Biedermann, em 1427), compara-se 
a Pierre de Provence.  a histria de um invencvel cavaleiro que cativa 
o amor de Vienne, filha do Delfim do Vienense. Paris, como Pierre,  
aprisionado no Oriente, na Sria e na Alexandria. Finalmente desposa 
Vienne.

Esse texto  conservado na biblioteca de Carpentras (n. 172). Podemos 
ainda pensar no amor de Flora que corre para o palcio do Sulto na 
Babilnia a fim de l arrancar Brancaflor. Aucassin et Nicolette retoma o 
tema e Aucassin, depois de aventuras cmicas, consegue desposar a filha 
de Garin de Beaucaire que se opunha aos seus amores. 5.  Concluso

Paris e Vienne do um lugar importante aos feitos da cavalaria, mas os 
dois textos so histrias de amor edificantes nas quais a constncia dos 
amantes triunfa. Pierre de Provence continua sendo uma obra mais humana e 
mais elegante; o estilo  simples, direto. A clareza e a uniformidade 
dessa narrativa muito sbria foram a razo do seu xito.

CAPTULO VI FORMAO DE LENDAS RECENTES CARTOUCHE ET MANDRIN

Dois clebres bandidos de proezas diferentes que souberam cativar a 
imaginao popular: Cartouche tornou-se assim o bom ladro enquanto que 
Mandrin  um salteador temvel que socorre os humildes. Desde a morte 
desses dois personagens, os livros se apoderaram de suas personalidades.

I.  Cartouche

a) Sua vida  Louis Dominique Cartouche, nascido em outubro de 1693 no 
bairro de La Courtille, em Paris, teve uma educao bastante rudimentar. 
Aos onze anos foi raptado por um bando de bomios e aos dezoito j 
roubava pelos belos olhos de uma pequena roupeira. Recrutador, organizou 
mais tarde o seu bando de acordo com os principios militares; seus 
tenentes chamavam-se Duchtelet, bem como Duplessis d'Entraigues, Louis 
Marcant, estudante de direito, Plissier, cirurgio. Como a Frana estava 
coberta por uma rede de agentes (teve trezentos e sessenta e seis 
cmplices) Plissier pode atacar o correio de Lio. A audcia desses 
homens  inacreditvel: um pregoeiro proclama a busca de Cartouche, esse 
se d a conhecer e apavora a multido que nada faz para det- lo. Suas 
evases so espetaculares (Fort- l'Evque).

Apesar de enriquecido pela rua Quincampoix onde Franois Le Roux 
despojava os visitantes do banco Law, Cartouche tornou-se receoso  ele 
prprio foi delator junto a M. d'Argenson. Duchtelet vende o seu chefe 
no dia 14 de outubro de 1721; encarcerado no Chatelet e depois na 
Conciergerie, sua pena de morte foi-lhe comunicada no dia 26 de novembro 
de 1721. No dia 27, na praa de Greve, j sem esperanas de ser salvo 
pelos seus, denunciou seus cmplices, enquanto que no interrogatrio, 
apesar do suplcio dos sapatos de ferro, nada confessou.

b) Sua popularidade  Esse bandido sanguinrio, supliciado na roda aos 
vinte e oito anos, foi exposto em casa do ajudante do carrasco: cada 
curioso pagava um soldo. A Confraria dos Barbeiros- Cirurgies trouxe o 
corpo para seu hotel e durante trs dias os parisienses puderam desfilar 
para v- lo. O molde de sua mscara  conservado na biblioteca de Saint- 
Germain; outra figura no Museu do Homem.

Sua biografia aparece em 1721, L'Histoire de la vie et du procs du 
fameux Louis- Dominique Cartouche (Histria da vida e do processo do 
famoso Louis- Dominique Cartouche), mas Legrand e Quinault j havia 
atualizado sua pea quando vieram ver Cartouche na priso; os italianos 
seguiram o teatro francs e representaram- no como Arlequim. Uma multido 
se formou para assistir essas peas. A aristocracia velo para ver o 
bandido prisioneiro, o prprio regente saiu das suas comodidades; os 
gravadores venderam seu retrato, os poetas, entre eles Racot de Grandvai 
(1725), glorificaram sua coragem, sua inteligncia, seu gnio de comando:

Ainsi finit Cartouche, et la Fleur des Guerriers Laisse sur l'Echafaud sa 
vie et ses lauriers.( 4)

II  Mandrin

a) Sua vida  Nascido em Saint- Etienne-de-Saint- Geoirs em Dauphin, no 
dia 11 de fevereiro de 1725, Louis Mandrin  um contrabandista popular 
com poses de gentil- homem. Em Chambry  recebido pela nobreza. Mandrin 
organiza um bando disciplinado e promove verdadeiras campanhas contra os 
Fermiers gnraux. Sua sexta campanha foi sangrenta. Mandrin no ataca os 
particulares mas obriga os administradores oficiais e intermedirios a 
comprarem os seus produtos contrabandeados; fornece recibos regulares. 
Mandrin  o gerente de um estabelecimento comercial; escrupuloso quanto 
aos pesos, as quantidades, insurge-se todavia contra os impostos 
descontados por quarenta mil empregados detestados. Malesherbes, primeiro 
presidente da Corte de Apelao, havia tambm condenado esse abuso.

Mandrin retoma as faanhas de Puymoreau que em 1548, com um bando 
organizado de seis mil homens lutou contra o imposto da gabela e tomou 
Saintes, Cognac, Bordus, libertando os contrabandistas
arrestados. Audacioso, afugenta as tropas de Lus XV que se lhe opem, 
ataca cidades inteiras: Autun, Bourg- en- Bresse  (5 de outubro de 
1754), Beaune (dezembro de 1754). Liberta os prisioneiros, menos os 
assassinos e os ladres; assina libertaes e enderea cartas corteses, 
porm firmes, s mais altas autoridades.

Depois de uma batalha decisiva contra os hussardos da legio de Fitscher, 
refugia-se na Savia. Seis regimentos de infantaria e dois de cavalaria 
foram mobilizados. Mas na noite de 10 para 11 de maio de 1755, raptado 
por soldados de La Morlire, do castelo de Rochefort, em territrio 
Sardo, os Fermiers gnraux instauram imediatamente um processo. A Corte 
de Turim manifesta-se contra essa violao de direitos e de seu 
territrio, mas, no dia 26 de maio de 1755 era executado em Valena. Em 
seguida, a Frana humilhou-se perante a Casa de Sardenha e libertou dois 
companheiros de Mandrin injustamente aprisionados. Mandrin no denunciou 
nenhum de seus companheiros, fez supor que no era responsvel por 
nenhuma morte; aos trinta e um anos sua morte foi edificante.

b) Sua popularidade  Suas aventuras galantes, suas fugas, suas faanhas 
audaciosas, seu papel de benfeitor para com a populao  qual vendia 
produtos de excelente qualidade a preos muito acessveis, fizeram com 
que o nomeassem capito geral dos contrabandistas da Frana. Seus 
irmos Antnio, Francisco e Cludio, bem como sua irm Mariana, ficaram 
incumbidos de continuar a organizao do irmo.

Entre 1755 e 1760, vinte e cinco contrabandistas foram supliciados  roda 
ou esquartejados e cinco foram enforcados. O povo chorou a morte de 
Mandrin. O abade Regley criou para os Fermiers gnraux uma Histoire de 
Louis Mandrin (1755) com detalhes das suas crueldades, dos seus assaltos 
e do seu suplcio; o que nada mais  do que uma rede de calnias 
encontradas em algumas madrinades. Os Fermiers gnraux pretendiam 
assim desviar a opinio geral: Mandrin nada mais era do que um salteador. 
Foi confundido com Cartouche. De fato, a Revoluo francesa ia realizar a 
obra sonhada por esse contrabandista.

Concluso  Esses homens, com sua coragem audaciosa, tomaram propores 
sobrenaturais. Com os louvores desses homens criou-se a lenda. O 
mecanismo dessa miragem da imaginao popular  assim bem evidenciado. 
Mais recentemente lembramo-nos de Bonnot cujas faanhas foram multas 
vezes comentadas, ou do bandido siciliano Giuliano glorificado nas telas 
cinematogrficas. Mas essas lendas ainda novas j no deixam lugar ao 
simbolismo, somente ao maravilhoso. A lenda de Santa Teresa de Lisieux 
poderia ser considerada sob esse prisma. 118

CAPTULO VII ALGUNS CONTOS DE PERRAULT I  Introduo

Perrault, depois do xito de Pele de Burro, pensou em transcrever Les 
contes de la mre l'Oye; suas fontes nos so desconhecidas mas os motivos 
existem numa literatura coletiva, talvez criada pelo produto inconsciente 
da imaginao proveniente de fontes multo antigas.

Se o texto age por encantamento, descobre tambm um sentido que 
ultrapassa a simples moralidade
devida a Perrault, que alis se desinteressou pelas fontes iniciais. 
Bacon escreve: Confesso simplesmente que desde sua origem as fbulas 
antigas foram alegricas e encerravam lies importantes.

1.  Valor do conto

Ora, encontramos de novo o mesmo repertrio de contos  com seus temas 
iniciais semelhantes  em cada pas e em cada latitude; essa migrao 
prova um ritual unicamente acessvel aos iniciados. Mas essas palavras de 
encantamento, forma de uma magia vinda at nos Evangelhos, no so apenas 
simblicas. Alm das cerimnias iniciticas, o conto interpreta a vida e 
as tradies regionais. Por suas virtudes msticas, o encanto dessas 
fices no pode ser nem pueril nem grotesco. E  preciso abandonar nossa 
atitude racional de homens que querem ser instrudos e inteligentes para 
desfrutar o sabor desses contos que nos lembram a alvorada de nossa 
infncia.

2.  Tese solarista

Despertou grande interesse a tese solarista de B. Busson. Barba- Azul  
uma alegoria do sol que mata cada dia a Aurora, sua nova esposa. A Aurora 
 curiosa; ela penetra por toda parte. Mas no aposento proibido estar 
encerrado o trovo; a Aurora  libertada por dois cavaleiros, os Avins 
do Rig- Veda, os dois crepsculos. O Pequeno Polegar relacionar-se- ia 
com os sete raios do alvorecer. Andr Lefevre, Frdric Dillaye 
compartilham essa opinio. Na mitologia antiga podemos encontrar o sol 
com o seu emblema de chaves.

Porm, Barba- Azul pode ser Saturno em luta com o novo ano, sua nova 
esposa; contudo as pesquisas para justificar a significao do nmero 7 
conduzem a outras interpretaes cujo carter esotrico no poderia nos 
escapar.

3.  Valor do algarismo 7

Se as sete esposas de Barba- Azul, ou os sete irmos do Pequeno Polegar, 
as sete fadas da Bela Adormecida no Bosque, as sete filhas do papo, as 
sete mulheres do gigante podem se assemelhar aos sete dias da semana, o 
valor desse nmero  extraordinrio. Encontramos as sete solenidades do 
Judasmo, os sete ramos do Castial de ouro, os sete filhos de Macabeu, 
enquanto que Tbis  o stimo esposo de Sara. O Esprito Santo tem sete 
dons, a Virgem, sete dores, o evangelho sete demnios e sete anjos 
planetrios. Temos ainda os sete sacramentos, os sete diconos, os sete 
selos do Apocalipse, os sete pecados mortais, as sete virtudes, as sete 
cores do raio luminoso, as sete notas musicais, as sete maravilhas do 
mundo. Para Anne Osmont cada um dos sete planetas do Pater se aplica a um 
dos planetas que compem a antiga astrologia enquanto que para os hindus 
a terra se dividia em sete planetas.

Sete seria o smbolo da vida eterna, da ao e da evoluo; a prpria 
iniciao tem sete graus. Esse algarismo, que se liga a trs e onze,  
ainda encontrado numerosas vezes.

4.  Simbolismo

O conto  que se rene  lenda pela transformao do seu tema  reflete, 
no que concerne sua interpretao, a moda intelectual do dia. Os heris 
podem personificar fenmenos naturais, mitos meteorolgicos, usos 
cotidianos de todos os povos. O internacionalismo desses contos nos 
conduz a
pensar numa transmisso oral. Os presentes das fadas podem constituir 
ritos de aniversrios e Pele de Burro torna-se uma rainha de carnaval. Se 
voltarmos s nossas origens poderemos encontrar novamente o frescor da 
nossa alma de criana, e assim, num mundo deformado, evoluem esses heris 
dotados pela natureza; mesmo sendo os personagens minsculos, podem 
realizar grandes feitos pela sua coragem e pelos benefcios da iniciao. 
Os animais so bons e os prprios objetos tornam-se atributos do poder; o 
bon torna invisvel, o basto invencvel e a sandlia  o signo da 
velocidade.

Este simbolismo dos objetos  discernvel na gua de Juvncia, nas 
beberagens de imortalidade e o heri, para alcanar um estado superior, 
pe-se  busca de um objeto que pode ser um objeto mgico, um tesouro, 
uma noiva. Na histria de Gata Borralheira o heri busca a luz e os trs 
vestidos csmicos (cu, lua e sol) participam da vida universal.

O conto representa um mundo sobrenatural no estado de pureza; no mais se 
ocupa do sentido literal e chega at o absurdo para se preocupar apenas 
com um simbolismo bastante aparente. O ouro torna-se o emblema da energia 
solar e os cabelos, smbolos da vida, so de ouro. A Bela Helena, assim 
como Pele de Burro assemelham-se a Aquiles- e Mngal.

Os contos, aplogos religiosos, ensinam, a moderao de nossos desejos na 
aceitao da nossa condio. (Les souhaits ridicules, Griselidis) (Os 
desejos ridculos), mas so tambm uma evaso. Em vista da credulidade 
popular receber mal o desaparecimento do heri e criar uma lenda que o 
faz reviver desde o dia da sua morte, alguns desses personagens 
imaginrios podem reviver; da mesma forma como nunca se admitiu a morte 
de Joana d'Arc, de Napoleo ou de Hitler, no se pode admitir a morte de 
heris dotados de qualidades excepcionais.

 por isso que os contos divertem e instruem ao mesmo tempo.

5.  Os predecessores de Perrault

Esses contos de tradies antigas, memrias coletivas, como diz Guenon, 
foram compilados por vrios autores.

Antes da publicao dos contos de Perrault (1697), outras compilaes j 
existiam. Citaremos apenas as mais importantes, sendo as variantes 
particulares anotadas no seguinte estudo esquemtico. Antes de tudo  a 
engenhosa reunio de contos que parecem engendrar uns e outros: o livro 
de Mil e uma noites. Antes dos Contes du Perroquet (Contos do Papagaio), 
os Contes du Vampire (Contos do Vampiro), o compndio mais antigo  o 
Pantchatantra que se havia multiplicado na forma ocidental do Roman des 
sept sages (Romance dos sete sbios) e na forma rabe no Le livre de 
Kabile et Dimna.

Entre os que tomaram a dianteira de Perrault notemos o Decameron de 
Bocccio, Les nuits de Straparole e o Pentameron de Basile. Perrault e em 
seguida Mme d'Aulnoy, adaptaram essas fices ao gosto do pblico 
francs. Walter Scott fez o mesmo na Inglaterra, os irmos Grimm na 
Alemanha, Afanasieff na Rssia e Asblrnsen na Noruega.

II.  Barba- Azul 1.  Teses histricas

a) Alain Bouchard (Les grandes chroniques, 1531) e Alberto Magno (La vie 
de saint Gildas, 1680),
registram que o rei breto Comorre, tendo um orculo lhe predito que 
seria assassinado pelo prprio filho, teria matado suas sete esposas. 
Influncia da lenda grega, sem dvida mas sua ltima esposa, Santa 
Triphime,  ressuscitada por Santo Gildas. O tema aparece nos afrescos da 
capela de Saint- Nicolas (Bieuzy, Morbihan);

b) Collin de Plancy, Ch. Giraud, Michelet crem que Gilles de Rais, 
marechal de Frana, fiel companheiro de Joana d'Arc, inspirou a lenda. 
Entretanto, desposou uma nica mulher, Catherine de Thouars, que a ele 
sobreviveu. Este homem letrado que atemorizava seus herdeiros com suas 
despesas fastosas, foi condenado e executado em Nantes (26 de outubro de 
1440) com a idade de trinta e seis anos por haver degolado trezentas 
crianas em sesses de magia. Esse processo parece suspeito e S. Reinach 
e F. Fleuret tentaram reabilit- lo. Tal como a imaginao popular 
censurava aos primeiros cristos sacrifcios humanos, parece que Gilles 
de Rais tenha sido vtima de sua fortuna e de seus ataques polticos.

c) Pensou-se em Henrique VIII da Inglaterra que esposou seis mulheres e 
fez com que duas morressem no cadafalso. Maspero e Gaston Paris fazem 
dele um vampiro que bebe sangue humano. Doente, neurtico, Barba- Azul  
comparado aos grandes criminosos como Landru ou John Christie;

d) A cor extraordinria de sua barba assemelha-o a Indra, a Bs, o 
Egpcio, ou a Jpiter. Tem uma barba azul quase preta, ou azul- celeste 
(Oh!) e Sbillot menciona uma barba vermelha. No simbolismo das cores  
preciso ver o smbolo do iniciador, o condutor de almas que faz transpor 
as portas da morte espiritual.

2.  Tema da curiosidade. Iniciao

O tema da curiosidade  comum a todos os pases e visa principalmente a 
mulher. Na. Bblia achamos Loth, Eva e Sodoma. As Mil e uma noites fazem 
da curiosidade uma ampla interpretao. Esse segredo conjugal est 
presente em Parsifal onde a duquesa de Brabante perde seu esposo por lhe 
haver perguntado quem era ele. Essa curiosidade visa um ritual que nos 
escapa; talvez o da preparao para o casamento. A jovem  sujeita a uma 
prova difcil: a tentao do local secreto. Em seguida vem a ltima 
prova, o simulacro da morte; ritual de morte e de ressurreio na qual o 
nefito, despojando o velho, desperta num mundo novo, o do conhecimento. 
 o caso da religiosa colocada no seu atade. Para essa cerimnia de 
iniciao a mulher pode vestir seus mais belos adornos, ou se impor a 
nudez ritual do batismo dos primeiros cristos (forma nivernesa da 
lenda). A magnificncia da morada de Barba- Azul lembra os castelos 
encantados e esse grande senhor, corts e feio, no d a razo dos seus 
crimes.

3.  O quarto secreto

Esse local secreto parece ser o lugar do saber por excelncia.  a loja. 
Um conto de Carnoy L'homme de fer (O homem de ferro), mostra que a 
criana desobediente no pode conhecer o derradeiro segredo. A forma 
original do Conte du magicien et son apprenti (Conto do mago e seu 
aprendiz) parece ser a Histoire du radja Madama Kdma na qual um prncipe 
instrudo por um feiticeiro tenta e consegue escapar-lhe; Cosquin (tudes 
folkloriques) e W. Crooke (North Indian Notes and queries, 1894) narram 
contos semelhantes.

Porm o quarto secreto aparece mais claramente na introduo do livro 
mongol Siddhi- Kr, no qual o caula descobre a chave da magia espiando 
pela fresta de uma porta. A curiosidade  pois recompensada. Os contos de 
Velay (Cosquin), da ilha de Zanzibar, de Bosnia permitem, ao iniciado
triunfar depois de haver transgredido um regulamento de interdio. Este 
ltimo conto, recolhido por Desparmet, assemelha-se ao de Aladin (As mil 
e uma noites): um jovem sem fortuna quer desposar a filha do rei.

Contudo, quase sempre, essa curiosidade  nociva. O homem  expulso do 
paraso pelo seu gesto da desobedincia (conto hindu de Somadeva Rhatta; 
histria do Terceiro calendrio de mil e uma noites). Sem se instruir nos 
trs estgios impostos (purificao, saber, poder), o nefito quis 
penetrar no santurio secreto: da mesma forma  enxotado dessa confraria 
(Roman des sept vizirs (Romance dos sete vizirs), enquanto que o prncipe 
do Fidle serviteur (Fiel servidor) (Carnoy) enamora-se de um retrato 
conservado num quarto interdito.

L'enfant de la Vierge Marie (O filho da Virgem Maria) (Grimm), Le 
bnitier d'or (Cosquin), Maria Morewna (Ralston e depois Marnier) e 
numerosas variantes mencionadas por Saintyves, referem-se ao tema da 
interdio do Quarto Secreto. Doze quartos corresponderiam aos doze 
apstolos, o dcimo- terceiro quarto sendo o do Santo dos Santos.

Carrouges estende esse simbolismo aos romances policiais para interpretar 
o mistrio dos quartos fechados.

4.  O objeto denunciador

Um objeto mgico denuncia o culpado que tentou penetrar no local, 
secreto.  o caso do conto de Perrault, do Oisel emplum (Pssaro 
emplumado) de Grimm, de La veuve et ses filles (A viva e suas filhas) de 
Loys Brueyre. O objeto pode ser uma chave, um ovo, um pequeno cofre, um 
retrato e at uma regio.

Depois o prprio objeto mgico tornou-se a representao do quarto 
iniciativo. Essa casa dos homens, esse centro de reunio de iniciados 
transforma-se num cofre que encerra o saber. Andrew Lang v nisso tudo a 
sobrevivncia do culto primitivo e acrescenta o anel jogado ao mar e 
encontrado depois no corpo de um peixe. Mas a chave, smbolo axial, pode 
ser considerada pelo seu poder de ligar e desligar; seu conhecimento tem 
ento o mesmo poder que a palavra de Ali Bab ou a do Pequeno Polegar. s 
vezes o objeto desaparece: um sinal aponta o culpado; so os cabelos de 
ouro do Homme de fer (Carnoy) ou o dedo dourado de uma criana 
desobediente (Steele Swahili, Tales, 1870; Contes Cambodgiens, 1868; 
Conte Chao Gnoh); o ouro  ento o emblema das energias solares.

5.  Auxlios

Essa luta entre o iniciado e o iniciador implica auxlios exteriores. 
Esses auxlios provm dos pais, de um religioso, de um sbio, de um jovem 
(W. Crooke observa o caso de um heri aconselhado pela filha de seu 
inimigo). Os mortos que aconselham so numerosos (Cosquin, Steele, 
L'oiseau de vrit (Pssaro de verdade), Les trente- deux rcits do Trne 
(As trinta e duas narrativas do trono) ou Vicramaditia, La lgende de la 
mort (A lenda da morte) (de Le Braz); D. Juan tambm recebeu os conselhos 
do comendador. Os animais, aliados do homem, sob a influncia da ndia, 
previnem contra o perigo. Com Perrault essa parte  abreviada e os irmos 
chegam inopinadamente.

6.  Concluso

Parece que o conto de Barba- Azul visa a iniciao de um ser; sua 
curiosidade impede- o de beneficiar do ensinamento desta arte mgica. Os 
elementos interiores desse tema, conhecido em todos os pases, se 
encontram num ritual que parece reservado aos iniciados.

III.  A Bela Adormecida no bosque 1.  Tradio mitolgica

Depois de Hyacinthe Husson que assimila a herona  luz celeste invadida 
pela noite ou pelo inverno  sendo a noite, neste caso, representada pela 
floresta  Charles Ploix (Le surnaturel dans les contes) (O sobrenatural 
nos contos) nele descobre o despertar matinal. Mas, a primavera livre das 
correntes do inverno tem numerosos adeptos: Husson (La chine 
traditionelle) (A cadela tradicional), Max Muller (Essais de mythologie 
comparde) (Ensaios de mitologia comparada), Bachelin (Sept contes 
roumains) (Sete contos Rumenos). A verso siciliana (Suli, Perna et Anna, 
G. Pitre, 1875), ou a verso hindu compilada por Frre no Deccan Days, 
1868 (La laitire et la griff e du Rakshasa (A leiteira e a garra do 
Rakshasa) se aparentam a essa origem primaveril que reencontramos em 
Pentamrone (V, 5) ou ao conto alemo Rosa de espinho.

Para Gdon Huet (Les contes populaires)  o sono mgico, de aspecto 
exttico que reencontramos no Sept Dormants.

2.  A presena da fada m

As Parcas, perto dos beros, prediziam o futuro das crianas. Andr 
Lefevre compara a fada m  Fatumantique enquanto que Sbillot, Husson 
e Dillaye pensam numa bruxa (Lgendes locales de la Haute- Bretagne, t. 
II) (Lendas locais da Alta Bretanha). A lenda egpcia apresenta no 
nascimento de Montemonia em Louqsor, de Ahmasi em Deir e de Clepatra em 
Erment, sete fadas madrinhas. Isto faz lembrar os sete Lipikis hindus que 
anotavam durante a vida dos homens seus procedimentos nos sete planos de 
suas conscincias (sensao, emotividade, inteligncia, intuio, 
espiritualidade, vontade e prescincia do divino). Desta forma era 
determinado o destino do indivduo na ocasio de sua reencarnao. Suas 
boas aes anteriores tornavam-se dons inatos. As fadas que assistiram ao 
nascimento de Ogier, o Dinamarqus, so apresentadas nas Croniques du 
Roy. Perceforest (sculo XIII), por ocasio do parto da rainha Zelandina 
ou na Heurcuse peine (Mme. Murat, 1698). No La biche au bois (A cora do 
bosque) e Le serpentin vert (A serpentina verde) encontramos duas fadas 
que foram esquecidas. As vezes, as fadas, ao invs de adormecer, 
petrificam-se (La reine des abeilles (A rainha das abelhas) de Grimm, 
(L'arbe qui chante) (A rvore cantante), L'oiseau qui dort, (O pssaro 
que dorme), Le fidle Jean (O fiel Joo) de Carnoy. Em A bela e a Fera as 
duas ms irms tornam-se esttuas.

3.  Simbolismo do fuso

Na maioria desses contos, a virgem adormece depois de uma picada, quase 
sempre, de um fuso. Loeffler- Delachaux, notando que nas tribos 
primitivas e atualmente na frica equatorial, a educao das crianas  
confiada a pessoas idosas, geralmente estranhas  famlia acha que a 
fiandeira inicia a adolescente perturbada com a sua metamorfose. A teoria 
freudiana interpreta o fuso como um emblema flico.

Loeffler- Delachaux (Symbolisme des contes de fes, 1949), observa as 
prostitutas sagradas doa templos
de Afrodite que se apresentavam com a cabea cingida por um fio; esse 
penteado foi adotado por Ariadne cujo nome significaria fuso, e depois 
baseando-se na palavra fencia Khr, demonstra que a palavra cruz (de onde 
provm cruzamento) relaciona-se  atividade sexual; e em ingls arcaico 
Rod significa ao mesmo tempo, cruz ou pnis. Depois de sua curiosa 
demonstrao, o autor conclui que o fio representa a perpetuao da 
espcie.

 exato que em L'adroite princesse (A hbil princesa), as rocas de fiar 
das duas princesas Nonchalante e Babillarde se quebraram quando elas 
foram seduzidas e que o rei soube que s a roca de Finette permanecera 
intacta. Laideronnette, instruda pela sua boa fada, acalma sua 
repugnncia pelo Serpentin vert. Brynbild mergulha num sono letrgico com 
a picada de um , espinho. (Beauvois, Histoire lgendaire des francs, V) 
(Histria lendria dos francos).

Loeffler- Delachaux d tambm uma significao csmica ao fuso que 
simbolizaria o comeo do dia ou a origem de um mundo no momento em que 
os tomos que o constituem so polarizados pelo magnetismo csmico.

4.  As interdies

Para Saintyves essas interdies eram no princpio do ano, pois fiar  
ligar e o bobinamento podia frear o movimento do renovamento.  um ritual 
mgico que muito se aproxima da superstio.

5.  As Belas adormecidas

Alm da Valkyrie Brynhild adormecida por Odin, lembramos tambm o sono de 
Adnis e Osiris, a inatividade da virgem Persfone.

O conto dinamarqus da compilao de Svend- Grundvjg (H. Husson) menciona 
o sono de uma jovem mulher que durou sete anos; Loys Brueyre (Contes 
populaires de la Grande- Bretagne), cita La princesse grecque et le jeune 
jardinier (A princesa grega e o jovem jardineiro); Vieillesse d'Oisin 
(Velhice de Orsin); L'Enchantement du comte Grald (O encantamento do 
conde Geraldo), Musique du ciel (Msica do cu); Les escaliers du gant 
Mac Mahon (As escadas do gigante Mac Mahon). Uma jovem camponesa adormece 
assim na floresta e desposa o terceiro cavaleiro (Bujeaud, Chanson 
populaire de l'Ouest, 1866). 0 filho do pescador desperta a princesa 
Tournesol (Luzel, quinto relatrio dos Arquivos das misses cientficas). 
A histria de Suria Bai (Frre, Old Beccan Days)  mais completa. Filha 
de uma leiteira, raptada pelas guias,  arranhada pelo filho de uma 
bruxa e adormece. O raj desperta- a e a esposa; a primeira esposa do 
raj afoga- a e Sourya se transforma ento em vrias plantas para enfim 
encontrar sua me e o amor do raj.

Branca de Neve (Grimm) assemelha-se com Suria Bai; as guias so 
substitudas pelos sete anes, a unha venenosa por um pente venenoso. 
Branca de Neve no se transforma em flores mas deitada no seu esquife de 
vidro recebe os lamentos dos animais. Bidasari, poema malaio (Backer, 
Plon, 1875), retoma esse tema. Grimm com Rosa dos bosques se aproxima de 
Perrault, bem como o conto siciliano Bull, Perna et Anna Pitr, 1875.

Le coffret volant (O cofrinho voador) de Andersen  de influncia 
asitica. No Roman de Perceforest, Zelandina acordada, se desespera por 
ser me; ela se casar finalmente com Troylus seu amante, mas  
brutalidade desse conto segue-se a suavidade do jovem que se ajoelha 
diante
da princesa ou d-lhe um casto beijo. Com o Pentameron (o sol, a lua, e 
Tlia), o prncipe  casado; a jovem que se torna me sofre a clera da 
esposa que quer mandar matar os filhos de sua rival. No conto francs 
tudo se ameniza e idealiza. O sono letrgico aparece no Tapete mgico, Le 
bonnet invisible (O barrete invisvel) (Glinski, Hachette, 1864), no qual 
um pas inteiro  adormecido por castigo celeste como em Mil e uma noites 
(Histria do cavalo encantado).

Joo, o Urso, liberta Pomme d'Or (Conto de Provena) e o cavalo encantado 
nos Contes franais de Carnoy, 1885).

O poeta cretense Epimride, menciona, seiscentos anos antes de Jesus 
Cristo, o sono de um jovem que penetrou numa caverna, onde dorme durante 
cinqenta e sete anos.

A caverna dos sete adormecidos  clebre no Oriente; murada por ordem do 
imperador Dcio em 251, os irmos mrtires l dormiram cento e cinqenta 
e sete anos. Finalmente o imperador Frederico Barba- Roxa dorme ainda 
debaixo da montanha de Kyffhoeuser na regio de Turngia.

As princesas dormem como as lembranas no fundo de nosso inconsciente e 
o prncipe encantado que as desperta  nosso consciente chamando as 
imagens ancestrais necessrias  sua ao (Loeffler- Delachaux). Algumas 
dessas princesas so apenas encerradas numa torre, um poo postas  
margem da ao.  o caso do conto trtaro Ac- Beiaz, filha de Abdala 
Yusuf (edio Lehoucq, 1783).

Esses fatos sugerem as cerimnias iniciticas  sala de reflexos, esquife 
 onde o nefito se recolhe fora de todo o contacto humano. Essa forma de 
lenda se assemelha talvez aos misteriosos poos das igrejas onde os 
penitentes deviam ser mergulhados antes da absolvio (Gosselin); diz-se 
ainda a Verdade vem do poo. Este gesto  to simblico quanto a gua, 
 purificadora.

Quanto aos despertares, corresponderiam  lei cclica de periodicidade.

6.  A floresta

Nos hinos vdicos o oficiante deve ser isolado e garantido. As portas 
desse local, rodeadas por uma paliada, s se abrem nas horas de 
festividade (Abri- vos, portas eternas, cantava o ritual). A proteo e o 
isolamento do taumaturgo so feitos ainda por um traado intransponvel 
para os poderes ocultos nocivos. Nesse caso a floresta forma esse 
isolamento ritual. Sigurd substitui essa floresta por um crculo de 
chamas. Saintyves nela descobre a rvore de Suria Bai, a rvore sagrada 
aos ps da qual Buda foi iniciado. Realmente  na ndia que se encontra 
esse smbolo de uma vegetao que  preciso afastar a fim de poder 
penetrar a nova civilizao. Loeffler- Delachaux observa (Symbolisme des 
Contes de fes) que o sono coletivo da corte marcaria o tempo de repouso 
entre duas encarnaes e que essa inextricvel vegetao substitui o 
gigante enterrado, no corpo do qual  preciso se introduzir para penetrar 
no segredo (lenda finense, o- Kalevala). Mas encontramos mais certamente 
nessa narrativa um aspecto do quarto interdito. Para esse autor, a 
penetrao no corpo da pessoa adormecida representa, num sentido profano, 
a cpula, num sentido sagrado, a imagem da invaso do consciente no 
inconsciente, num sentido inicitico, a descoberta de arcanos de uma 
civilizao desaparecida.

IV.  Gata Borralheira e Pele de Burro 1.  Motivos

a) Esses dois contos tm grande analogia. Loys Brueyre (Contes populaires 
de la Grande- Bretagne) observa duas tradies nas quais se confundem. O 
anel e o chinelo desempenham o mesmo papel e Miss Mariam Roalfe Cox 
estuda as suas trinta verses (Cinderella, Londres, 1893).

b) Pele de Burro  O rei promete  rainha moribunda s desposar uma 
mulher mais bela do que ela (Perrault) ou aquela em cujo dedo servisse o 
anel da rainha (Siclia, 159, 186; Rssia, 171, 172; Noruega, 181; 
Portugal, 184); ou que pudesse vestir os mesmos vestidos (Grcia, 176; 
escocs, 151) ou os sapatos (italianos, 134, 150). Ora, s a filha do rei 
preenche as condies. Para fugir a essa unio criminosa, a princesa 
formula trs desejos que o rei consegue satisfazer. Disfarada, foge e 
serve miseravelmente em casa de um prncipe que descobre quem  a 
pretensa serva e esposa- a.

c) Gata Borralheira  Tratada por suas irms como uma empregada, Gata 
Borralheira, por uma ajuda exterior  fada, animais  consegue ir trs 
vezes ao baile onde encontra o prncipe; mas terminando o encantamento 
numa hora definida, a herona, na fuga, perde seu sapatinho que permite 
ao prncipe encontr- la e espos- la.

2.  Variantes

a) Pele de Burro  O incesto forma o ponto de partida desse conto. Por 
esse motivo Deulin pensa em Prajapati, senhor da criao, que violentou 
sua filha Uchar. Em 1550, com Straparole (primeira noite, conto IV), o 
prncipe Thibaut quer desposar sua filha Doralice. Na Histoire de Sainte 
Dipne (Histria de Santa Dipne) (Ribardeneira, Fleur des vies de saints, 
1616) (Flor das vidas de santos), o rei pago da Irlanda tenta desposar 
sua filha Dipne e finalmente mata a fugitiva;  Pele de Burro sem seu 
maravilhoso. Se Luzel (5o. relatrio das Misses Cientficas), Schleicher 
(Litaische Mrchen), relatam lendas semelhantes, Deulin cita outras 
variantes tais como a Belle Hlne de Constantinople (Bela Helena de 
Constantinopla), onde o suposto parto de animais lembra o Chevalier au 
cygne (Cavaleiro do cisne).

Num conto hindu (Le trne enchant) (O trono encantado), a princesa casa 
com um burro que se metamorfoseia em prncipe. Pernette, conforme 
Bonaventure de Perriers (Nouvelles Rcrations et Joyeux Devies) veste 
uma pele de burro para enojar um amigo. Se Ptriosa (O Pentameron) se 
transforma em ursa, Noel du Fail (1547) e Grimm aproveitam a idia (La 
reine dos abeilles) (A rainha das abelhas), La gardeuse d'oies (A 
guardadora de gansos), La vrai fiance (A verdadeira noiva). Enfim a 
extraordinria cozinheira enegrecida com sebo de Peau de toutes les btes 
(Pele de todas as feras) (Grimm), que casa com o prncipe depois de 
aparies que se assemelham s de Roberto, o Diabo.

b) Gata Borralheira  A sandlia da cortes Rodopis foi levada por uma 
guia e caiu subitamente diante do fara admirado; Rodopis descansa agora 
sob a terceira pirmide (Estrabo, liv. XVII). Ellen (Histoires diverses, 
XIII) reproduz essa anedota para glria do rei Psametico. Cosquin regista 
dois contos anamitas nos quais gralhas levam os sapatos dourados da Gata 
Borralheira ao palcio real. Mas geralmente a herona perde os sapatos 
fugindo. Lembramo-nos de Penlope, de Berta dos ps grandes (Henry 
Pourrat, Marie Cendron, t. I). Ei- la num conto malgaxe (Ferrand, .1893, 
n. 35), mas depois de Finette Cendron, Landes relata contos anamitas 
(Saigon, 1886) e Leclre, verses tjame e cambodgeana. Se Miss Cox anotou 
essas variantes, Cosquin firmou algumas verses cabilas, silesianas, 
islandesas (Contos Populares, t. II). Realmente esse ensaio do sapatinho 
constituiria o rito da eleio, a posse de um novo lar. Temos um exemplo 
em Rute (IV, 7- 10) no qual Booz recebe dessa maneira Rute, a Moabita.

3.  Interpretaes

a) Para Gubernatis, a aurora, perseguida por seu pai, veste o casaco da 
noite; para H. Husson, Ch. Ploix, a aurora se oculta sob a bruma a fim de 
se entregar ao sol levante. Conforme verses nrdicas, Loys Brueyre v 
nessas verses, o casamento ritual do ano com o novo sol. Saintyves pensa 
na evocao do carnaval, liturgia primaveril na qual as duas heronas 
vestem os trajes e os atributos de uso.

b) O traje  Esse revestimento de peles de animais consta do Gnese (III, 
21). E Deus fez para o Homem e para a Mulher roupas de peles e com elas 
os vestiu; ora, conforme o esoterismo, toda matria universal  viva. 
Esse disfarce que muda a personalidade assemelha-se ao fenmeno da 
reencarnao que encontramos na ndia. Se Gata Borralheira usa vestidos 
que se assemelham s estaes ou ao tempo (Rssia 153; Grcia 176), Miss 
Frre refere-se a um conto hindu no qual uma jovem disfara-se em mendiga 
(retomado no conto toscano 285). No folclore italiano as virgens 
encerram-se em esttuas de velhas e algumas vezes em sua pele (Cosquin). 
O sapatinho de veiros denota a pureza e a beleza. Encontramos essa 
transformao em Riquet  la Houppe. c) O nome de Gata Borralheira  Mine 
d'Aulnoy e Perrault referem-se s cinzas da lareira e o Pentameron  Gata 
das Cinzas. Saintyves, ao estudar essas variantes,  de opinio que as 
cinzas desempenham papel degradante;  a humilhao, a penitncia. 
Ulisses, humilhado por Aret e Alcnoo, senta-se nas cinzas; os hebraicos 
cobrem a cabea com cinzas em sinal de luto. Para Loeffler- Delachaux, 
Gata Borralheira  uma vestal presa ao culto do Sol, da Luz e do Fogo; 
ora, o fogo  o smbolo da Vida e do Amor.

d) A madrasta  Freqentemente a madrasta  representada por uma 
feiticeira (Cox Bulgria 127; Irlanda 9 e 10; anamita 68 e 69); s vezes 
por uma mgica (Cox Eslovquia 33; Grcia 17; Noruega 67, 110, 70); Luzel 
(Contes de Basse- Bretagne,- III (Contos da Baixa- Bretanha); Le chat 
noir (O gato negro) e Saintyves  confundem- na com o ano velho.

e) As ajudas  As ajudas que vm socorrer so fadas, animais  muitas 
vezes pssaros  e at a defunta me (Cox, Contos dinamarqueses 38, 43, 
64; noruegus, 87; Grimm 2); algumas vezes cultuam-se os ossos dos 
animais protetores (contos tjames 69). Desparmet (Contes populaires) 
menciona ajudas semelhantes.

(f) As carruagens  Passeiam os deuses no Olimpo e conduzem as fadas aos 
batizados. Os coches so os veculos das foras csmicas e da alma 
durante o decorrer. da reencarnao (Arjuma no Bagavad- Gita).  Os 
animais tm significao alegrica; Loeffler- Delachaux diz que o carro 
do sol  puxado por cavalos brancos e que as fadas podem ter carruagens 
de paz ou de clera (La biche au bois de Perrault). Na Finlndia, a 
carruagem  substituda pelo tren; o garanho representa a energia 
sexual libertada; esses raptos de mulheres figuram na Calevala, Le joyeux 
Lemmikagen. Os corcis no podem ser emprestados (Gracieuse et Percinet 
de Perrault, La gardeuse d'oies de Grimm.; o Pentameron.

g) Objeto denunciador  Gata Borralheira e Pele de Burro so reconhecidos 
graas a um objeto perdido (sapatinho), ou dado como penhor (anel, colar, 
alfinete, relgio, chave). O anel sem comeo nem fim, liame mgico da 
vida, talism, como a pulseira ou o colar, simboliza ritualmente o 
encadeamento de duas vidas.  encontrado numa iguaria e permite o 
descobrimento da herona disfarada.

V.  O pssaro da verdade

Vimos anteriormente que a ajuda sobrenatural vem muitas vezes de um 
pssaro. Totem individual ou gnio protetor, esses animais alados so 
agentes de unio, confidentes; em Florine., Serpentin vert, puxam a 
carruagem da bela que vai ao encontro de seu prncipe encantado. 
Simbolizam os sonhos ternos, os beijos, as carcias; so prestativos, 
permitem encontrar a coroa de ouro do rei (Grimm, Les deux
compagnons en tourne) (Os dois companheiros em tourne); procura 
distrair os prisioneiros (Andersen, Les cygnes sauvages) (Os cisnes 
selvagens). Prince et princesse (Prncipe ou princesa), ou previnem dos 
perigos (Carnoy, Le fidle Jean; tema do aprendiz feiticeiro). L'oiseau 
bleu (O pssaro azul) (Mme. d'Aulnoy) e ele prprio  o prncipe 
encantado amado por Florine.

O pssaro muitas vezes branco  desempenha papel primordial no tema de o 
pssaro da verdade. Para curar uma rainha; para defender uma pessoa,  
preciso encontrar trs objetos encantados: a rvore que canta, o pssaro 
que fala e a gua de ouro (Carnoy, Contes franais). Madrastas impelem 
crianas nessa aventura perigosa e num mundo desrtico  o do Graal  
moos foram transformados em pedra por no serem capazes de respeitar o 
pacto; o malefcio desaparecer assim que o heri conseguir apoderar-se 
dos objetos maravilhosos. Para atingir a rvore da vida  preciso 
atravessar uma regio desrtica; ora, essa rvore est no centro do 
Paraso terrestre, no centro de Jerusalm celeste; tem doze frutos e 
talvez devamos ver a concordncia que h com os doze Aditias. Esse tema 
aproxima-se muito do. da demanda do Graal e alis, conforme Orgenes, o 
prprio Cristo  a rvore da vida. O Cristo que  a virtude de Deus, a 
Sabedoria de Deus  tambm a rvore da vida pela qual devemos ser 
tentados,

Muitas vezes esse tema liga-se ao do Chevalier au cygne, romance da Idade 
Mdia. A me do rei anuncia falsamente que sua nora deu  luz ces e 
gatos com o intuito de mandar matar as crianas e repudiar a esposa 
detestada. Mas um vassalo condodo no pode cometer esse crime horrvel; 
entrega as criancinhas a um eremita e apenas tira-lhes o colar de ouro. 
As crianas que perderam assim o poder de um pentculo mgico, se 
transformam em cisnes. Depois de muitas tribulaes, encontram novamente 
sua forma primitiva com a posse do seu colar.

Cosquin menciona essas variantes nos seus Contes lorrains (Contos 
lorenos). Mais conhecido do que o conto siams (Asiatic Researches, 
1836),  o de duas irms que tm cimes da irm caula nas Mil e uma 
noites, que se assemelha ao conto caucasiano traduzido por Schiefner 
(Mmoires de l'Acadmie des Sciences, t. XIX). Este ltimo tema  o que 
mais liga ao tema inicial de Pssaro da verdade.

Pois finalmente toda a verdade  revelada por esse pssaro falador. 
Muitas vezes esse papel  desempenhado por um ancio (Grimm 96; 
Gubernatis; Carnoy). Mme d'Aulnoy retoma esse tema em La princesse Belle- 
Etoile (A princesa Bela- Estrela) e Henry Pourrat (Trsor des Contes, t. 
I (Tesouro dos Contos) aproveitou um conto semelhante.

Observemos que muitas vezes  uma jovem que leva a bom termo essa busca 
perigosa. Pela sua vontade, maior do que a sua fora, ela far com que 
cesse o malefcio que reina na regio e restitui dessa forma a vida a 
esses cavaleiros malogrados que foram transformados em pedra. O paralelo 
com o Graal  evidente. As vezes, porm, a jovem muito frgil, serve-se 
de um ardil:  o artifcio de tampar os ouvidos com cera a fim de no 
ouvir o horroroso tumulto; o tema no  novo. A herona se apodera de 
trs objetos maravilhosos e ao voltar esposa o ancio compadecido, o que 
estava encarregado de aconselhar;  o eremita iniciador de Joo, o Urso. 
Com esse casamento o personagem  libertado e o ancio se transforma num 
prncipe encantado.

VI.  O chapeuzinho vermelho 1.  O motivo

Collin de Plancy descreve a histria de uma camponesa de Finistre que 
deu ouvidos aos propsitos de um desconhecido; volta com o rosto 
enegrecido e macilento; encontrou o diabo, o esprito da astcia. No
conto de Grimm (26) e na maioria das outras verses a menina devorada 
pode ser retirada do ventre do lobo. Em Perrault o fim trgico  um 
castigo desproporcional ao erro.

2.  Interpretaes

Se Perrault v nesse conto uma moral que proibe s moas conversarem com 
desconhecidos pelo caminho  tema da proibio violada  Husson pensa no 
mito vdico de Vartica, no qual o Acvins so os crepsculos e a 
adolescncia, uma aurora interceptada pelo sol devorador sob a forma de 
um lobo Essa escurido pode ainda ser o inverno (Lefvre, Dillaye). Para 
Ploix o lobo  o inverno. Saintyves nele v uma rainha de maio: a cor 
vermelha sugere a alegria, atemoriza as feiticeiras enquanto que o bolo e 
o vinho  o vinho de maio seriam oferendas rituais. Essa alegria mgica 
envolvendo o sol novo teria sido resumida na verso francesa onde o clima 
 mais sereno. As verses nrdicas so mais completas. Depois da 
permanncia no corpo do lobo  espcie de aprisionamento que encontramos 
no conto O lobo e os sete cabritinhos, de Grimm  O chapeuzinho vermelho 
sai da barriga do lobo graas ao auxlio de um caador. Pretendeu-se ver 
nessa lenda a interpretao do ciclo estacional.

VII  O Pequeno Polegar

Esse conto. de origem inicitica interpreta a luta de uma criana 
franzina contra o papo.

1.  Interpretaes

Para Husson, o Pequeno Polegar  a luz da manh;  na floresta  durante 
a noite  ele joga seixos  as estrelas; o sol  o papo  devora suas 
crianas, os primeiros raios do alvorecer Saintyves pensa nas provaes 
de iniciao; o Pequeno Polegar, franzino antes da iniciao, torna-se 
poderoso. Essa transformao para a virilidade efetua-se nesse recinto 
sagrado representado pela floresta. As fontes vdicas so, desta forma, 
aparentes para Cosquin e P. Rgnaud (1897).

2.  Os temas

 um ano ou uma criatura franzina; sua inteligncia ativa permite-lhe 
triunfar do gigante de esprito lento.  tambm, Tom Ponce, cavaleiro do 
rei Artur (Brueyre); em Grimm, (37, 45) na Dinamarca, na ustria,  
pequeno como um dedinho. Prudente, o Pequeno Polegar demarca o caminho 
com o auxlio de pequenos seixos ou com um rasto de cinza (contos de 
Mekidech, Cabilia).

Graas  substituio de objetos, consegue fugir com seus irmos. O papo 
 ou o diabo -. enganado mata a sua progenitora. Saintyves observa 
numerosas variantes deste tema que  encontrado nos contos berberes (H. 
Basset), ou nos de Lorraine (Histoire de Courtillon).

Finalmente, por meio de uma falsa inpcia, de uma fingida ignorncia, o 
heri consegue livrar-se do prprio papo: por exemplo, pergunta ao 
feiticeiro como poderia penetrar num forno; o papo nele penetra e fica 
trancado.  o tema da caldeira que aparece nas variantes de Barba- Azul. 
Saintyves evoca desta forma a iniciao dos guerreiros, nas tribos do Sul 
da frica, por ocasio da cerimnia da circunciso.

3.  O papo

Pretendeu-se ver no papo o smbolo das devastaes hngaras; mas para 
Gaston Paris, ele herdeiro dos
racsas da ndia. O papo  ou diabo  Saintyves nele v uma sobrevivncia 
dos ritos de antropologia e refere os contos zulus, malgaxes (Renel). 
Para Loeffler- Delachaux ele  Saturno que devora seus filhos  medida 
que Cibele (a Terra) os pe no mundo.

4.  Os objetos mgicos

Os pantufos mgicos permitem a Chao Gnoh (Cambodge) viajar no ar. As 
botas de sete lguas so novamente mencionadas em Sbillot (Mlusine., 
III), Cosquin; os sapatos mgicos nos contos de Cachemira (Brihat- 
Katha), Madagascar (Capa), Prsia (Tutiname); so da mesma natureza que o 
chapu da invisibilidade ou a espada do poder. Hermes era o deus das 
sandlias aladas e ocultava os bois de Apolo como freqentemente o faz o 
Pequeno Polegar (Gasto Paris).

A troca de trajes, tnicas, anis, penteados, induz o papo ao erro 
(Saintyves, Deulin). No Ino de Eurpedes, Temisto mata seus filhos tendo 
Ino, sua rival, trocado as tnicas. L. Brueyre menciona uma variante 
escocesa, bem como Carnoy (Courtillon) e Sbillot (La Perle e le Petit- 
Peucerot) (A Prola e o Pequeno Peucerot).

VIII  Joo, o Urso

Existe, assim, grande nmero de contos nos quais um grupo de crianas 
perde-se, intencionalmente, na floresta. O tema do Pequeno Polegar se 
aparenta ao do Cavaleiro do cisne, no qual os filhos do rei, perdidos 
intencionalmente por ordem de sua av ciumenta, encontram um auxlio 
protetor antes de retornarem ao meio a que tm direito. Perseu, dipo, 
Ciro, Pris, Rmulo so, da mesma forma, expostos  morte, mas salvos, 
cumprem, sozinhos, a predio anunciada. Essas crianas solitrias so 
muitas vezes salvas por animais selvagens ou pastores, como Mowgli, o 
menino- lobo, imortalizado por Kipling. Houve, contudo, casos muito mais 
pungentes e precisamos nos lembrar particularmente daquelas pobres 
criaturas humanas, Amala e Camala, que viveram com animais e morreram em, 
aproximadamente, 1930. Moiss foi recolhido por uma princesa egpcia e 
Joo, por uma loba ou por uma ursa. O leite colhido desse animal 
compassivo deu-lhe uma fora excepcional. Esse adolescente leva uma vida 
vegetativa at o dia em que encontra o primeiro homem, o iniciador;  a 
adolescncia de Parsifal no Graal ou o de um dos numerosos heris do 
Pssaro da Verdade. Joo, o Urso pode tornar-se um cavaleiro corts e 
instrudo, cuja fora sobre- humana faz com que seja classificado acima 
dos seus companheiros,; ascende assim aos mais altos graus; contudo, 
continua um jovem de esprito estreito. Esse pesado gorducho vive nos 
contos de Cosquin (Contes lorrains), Grimm (Le jeune gant) (O jovem 
gigante), Asbjoernsen e essa estupidez aparece ainda no conto caucasiano 
Oreille d'ours (Orelha de urso). Geralmente, esse jovem que cresce em 
fora e beleza executa trabalhos extraordinrios; pode ter tido um 
nascimento comparvel ao de Roberto, o Diabo; mas Joo, o Urso consegue 
triunfar continuando bom para os seus semelhantes; por fim desposa uma 
princesa (Carnoy, Contes franais,. 1885).

IX.  Riquet  la Houppe

Ritual nupcial, Riquet mostra o poder mgico do amor sobre o ente amado.

1.  As variantes

Saintyves analisa esses contos nos quais o amor transforma a cnjuge. A 
mutao animal pode ser completa e constante (Le crapaud ) (O sapo) ou 
episdica (Le loup gris, L'homme Crapaud) (O lobo
cinzento, O homem- sapo). O marido pode deixar sua mulher que no soube 
guardar um segredo (Le roi de Pietraverde). O homem, transformado em 
bicho, torna ao seu estado assim que uma mulher se decidir a beij- lo ou 
a despos- lo. (A Bela e a Fera, O Pentameron). As vezes a esposa  o 
personagem encantado (Perceval, La chaise de crapauds) (Parsifal, A 
cadeira dos sapos).

2.  Interpretaes

A bela  a aurora  desposou o Sol que obscureceu; mas ao tornar-se 
cintilante ela deve segui- lo do Oriente ao Ocidente at a porta do 
palcio da noite.

Essa proibio de interrogar o ente amado significa para Saintyves o 
respeito de tabus nupciais. La veuve et ses filles torna-se ma das 
variantes de Barba- Azul: a histria do casamento infeliz. Essas 
metamorfoses se referem s prticas de sociedades secretas pags ou 
religiosas: os membros, durante sua iniciao, revestiam peles de animais 
ou mscaras de animais.

 assim- que essas narrativas mgicas de metamorfoses deram origem aos 
Pururavas, a Psiqu, a Riquet  la Houppa ou aos contos de Mme Leprince 
de Beaumont (Kusa le prince spirituel) (Cusa, o prncipe espiritual).

X.  O gato de botas 1.  Variantes

Se encontramos um conto semelhante em Pentameron (Gagluso), o conto de 
Zanzibar Sultant Darai assemelha-se muito ao nosso Gato de Botas. Mas 
quando a gazela benfeitora adoece, Darai esquece o que lhe deve; somente 
o povo lhe dedicar funerais pblicos.

2.  Interpretaes

A raposa da verso mongol , sem dvida, esse animal sagrado da sia 
mediterrnica, o gato  um animal feiticeiro (Europa); os gatos pretos 
acompanham as feiticeiras (Bodin). O gato calado como os oficiantes 
persegue ritualmente a raposa e sem dvida liga-se  liturgia egpcia:  
o servidor do Sol.

Esse papel de proteo relaciona-se ao ritual da instaurao dos antigos 
padres- reis das sociedades primitivas. Saintyves observa que o casamento 
prepara a ascenso ao trono e o futuro esposo troca de nome bem como o 
futuro rei.

Purificado pelas guas do rio, o heri veste novos trajes,  o cerimonial 
do coroamento; os sditos encontrados prestam obedincia ao novo rei que 
toma posse do seu palcio: ritual de instaurao real. Na maior parte dos 
contos o homem  ingrato; mas o animal pode demitir o rei que tem 
obrigaes para com o seu povo.

A gua  o emblema da ressurreio e da vida eterna. Com as guas 
maternais adquire-se um corpo novo que  o ritual do batismo. A gua, 
essa fonte de Juvncia, permitir que Hera volte  virgindade depois de 
cada imerso na fonte de Canatos em Nauphie; eis ai uma reencarnao da 
qual aproveita o nosso marqus de Carabas,

BIBLIOGRAFIA SUMRIA

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sicles (Droz, 1935). SAINTYVES, Manuel de folklore (Nourry, 1936). Henri 
DONTENVILLE, La mythologie franaise (Payot, 1949). LOEFFLER- DELACHAUX, 
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arthurienne (Presses Universitaires de France, 1952). Micheline SAUVAGE, 
Les cas Don Juan (Le Seuil, 1953).

NOTAS

(1) et moi- mme. Si Peau d'ne m'tait cont. J'y prendais un plaisir 
extrme
(2) A obra da carne no desejars a no ser no matrimnio. (3) Deus! Como 
 belo o assassino de meu pai! (4) Assim morre Cartouche, e a Flor dos 
Guerreiros. No cadafalso deixa sua vida e seus louros.
